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Um Gillette, um anúncio suspeito e o dia em que quase me ferrei em Guarulhos. - Maximus Brow - 18-06-2026 Um Gillette, um anúncio suspeito e o dia em que quase me ferrei em Guarulhos. O Facebook Marketplace é incrível. Você entra procurando uma inocente máquina de barbear antiga e, quinze minutos depois, está negociando com um sujeito que provavelmente já foi dono de um desmanche sem licença para funcionar e possui uma ficha criminal capaz de causar inveja em muito grupo criminoso organizado. Foi exatamente assim que começou minha viagem ao fundão de Guarulhos para buscar um antigo Gillette. Meu irmão acabou entrando na história comigo, mais por cautela prática do que por qualquer senso de aventura — alguém precisava garantir que aquilo não virasse uma situação fora de controle. Porque aparentemente meu cérebro decidiu que atravessar regiões onde até o sinal do GPS demonstra medo era uma decisão perfeitamente racional para adquirir um aparelho de barbear fabricado numa época em que a tuberculose ainda era considerada letal, mas administrável. O anúncio era maravilhoso. “Gillette antiga rara.” Só isso. Sem modelo. Sem descrição. Sem informação. Duas fotos tiradas com qualidade compatível com câmeras TecPix. Naturalmente, considerei aquilo um excelente sinal. O sonho de ter um modelo único à venda sempre seduz o colecionador mentalmente instável. O ponto de encontro era em uma área de Guarulhos que já conheceu dias melhores, com aparência de desgaste progressivo e estrutura urbana ainda existente, mas claramente no limite. O lugar cheirava a mato queimado, fumaça de escapamento e decisões ruins. Todo mundo já viu um cenário assim em algum momento da vida. Bares com nomes no aumentativo, como “Bar do Jorjão”, “Bar do Pedrão” e similares. Muitas crianças correndo na rua e som alto escapando de alguns quintais. Em certo ponto, ficou claro que, se o carro quebrasse ali, a escolha mais sensata seria abandoná-lo e priorizar nossa própria segurança. O vendedor mandou áudio: “Chegando aí cê chama.” A voz parecia saída diretamente de uma interceptação telefônica autorizada judicialmente. Quando chegamos, encontramos uma rua onde metade das casas tinha grades suficientes para conter uma rebelião penitenciária, e a outra metade parecia fruto de uma reabilitação urbana mal resolvida. Meu irmão ficou em silêncio, analisando o entorno, como quem decide mentalmente rotas de fuga. Então ele apareceu. Camiseta preta desbotada. Passo confiante, sem esforço, como quem não precisa provar nada. Bigode bem aparado. Olhar de quem já negociou peças de automóveis de procedência questionável e provavelmente ainda sente saudade da época. Braços cobertos por tatuagens que fariam policiais experientes levarem a mão ao coldre por puro reflexo. Parecia um dos parceiros do Zé Pequeno em Cidade de Deus. E era educadíssimo. Professor de História em uma escola estadual. “Você que veio buscar o barbeador?”, disse ele, me olhando nos olhos. Nenhum ser humano psicologicamente equilibrado atravessa aquela região ao entardecer para comprar um aparelho de barbear centenário de um desconhecido chamado provavelmente Leandrinho VP, Marcelão ou Índio. Mas ali estávamos nós. Eu tentando parecer normal. Meu irmão em silêncio absoluto. Entramos na garagem. E aquele lugar parecia o habitat natural do homem brasileiro especializado em “guardar coisas”. Ventilador quebrado. Ferramentas espalhadas. Caixas misteriosas. Calota de Opala pendurada na parede. E quase senti falta de um pôster da Playboy da Sheila Carvalho, só para completar o ecossistema. Então ele abriu uma gaveta. E tirou a máquina. Ela estava em um estojo surrado, mas ainda digno, e era um Gillette New, sucessor do Old Type, banhado a ouro, com porta-lâminas, completo. E, honestamente? Aquilo me deixou genuinamente surpreso, porque destoava completamente do resto do cenário. Porque o aparelho estava bom demais. Banho bonito. Dentes mais alinhados e menos amarelados que os meus. Rosca lisa. Um Gillette New absurdamente íntegro enquanto eu, com muito menos idade, já acordo gemendo ao levantar da cama. Peguei a peça na mão e imediatamente meu cérebro desligou qualquer vestígio de responsabilidade financeira. Colecionador de barbeador antigo é basicamente isso: um adulto funcional pagando dinheiro real em objetos que qualquer outra pessoa confundiria com instrumento de tortura medieval. O vendedor acendeu um Marlboro e disse, depois de soprar a fumaça para cima: “Isso aí era do meu avô. Tá comigo desde quando eu tinha 12 anos.” Essas histórias sempre vêm carregadas de memória familiar e um certo orgulho silencioso, como se o objeto carregasse também o peso de quem o usou. Conversamos mais alguns minutos. Descobri que ele também colecionava facas, rádios antigos e peças de carro, além de um sonho discreto de morar no interior. Fechamos negócio. E, para minha surpresa, o valor foi muito justo. Pix feito. Máquina já acomodada no bolso. Agradecimentos trocados. Aperto de mão forte. E a última frase dele: “Cuida dele, hein... ficou comigo por mais de 40 anos.” Na volta para casa, percebi o seguinte: 1. O alívio do meu irmão ao me ver sair inteiro e a dúvida silenciosa se eu realmente estava com a saúde mental em dia. 2. A constatação simples de que esse hobby é incrível. Parte do charme do barbear clássico talvez nem esteja no barbear. Está nessas pequenas missões absurdas que acabam dando sentido a objetos antigos e ao prazer quase irracional de tê-los em mãos. E sinceramente? Foi uma péssima decisão. E eu faria exatamente a mesma coisa outra vez. obs, isto aconteceu em Dezembro de 2025. abs, Igor. |