Caros confrades,
Há coisas que atravessam gerações com dignidade. Outras apenas sobrevivem porque ninguém teve coragem de aposentá-las. E nesse seleto grupo está a gloriosa Barbasol, espuma em lata que há mais de 100 anos segue firme no mercado americano, provavelmente sustentada por veteranos de guerra, pais de família do Meio-Oeste, homens mentalmente instáveis como eu e, claro, por aquela icônica cena de Jurassic Park, onde a lata aparece rolando na lama enquanto um T-Rex transforma engenheiros em lanche da tarde.
Aliás, é quase impossível não imaginar que, no começo do século XX, uma quantidade absurda de homens fazia a barba exatamente assim: uma generosa camada de Barbasol e um Gillette Old Type trabalhando no rosto do cidadão como um pelotão de infantaria invadindo território inimigo.
E sejamos honestos: talvez esse tenha sido o verdadeiro barbear clássico raiz. Nada de sabão artesanal curado por 14 luas sob cantos gregorianos. Nada de pincel feito com pelos de um texugo emocionalmente equilibrado. Qualquer homem comum da década de 1920 queria apenas duas coisas: remover os pelos da face e parecer minimamente civilizado para os vizinhos puritanos.
Pois bem.
Hoje resolvi revisitar esse pequeno encontro entre a praticidade industrial americana e a eficiência quase militar de um open comb com mais de 100 anos.
Espuma utilizada: Barbasol tradicional, lata de 283g. Baixa, parruda e com aparência de produto que provavelmente também serve para lubrificar tratores agrícolas.
A propósito, comparada às espumas da Bozano e Nivea, a Barbasol parece ter sido desenvolvida pela divisão alimentícia da NASA. A espuma é densa, rica e absurdamente volumosa. Um aviso aos confrades: o botão da válvula é praticamente um dispositivo bélico. Um toque mínimo já libera uma quantidade de espuma quase ofensiva, como se a lata estivesse aguardando aquele momento desde a Segunda Guerra Mundial.
A máquina escolhida foi um Gillette Old Type, porque seria moralmente questionável usar algo com menos de 100 anos nessa experiência.
A lâmina… bem… uma Parker moderna.
Peço perdão aos puristas.
Banho quente tomado. Rosto devidamente esfoliado com sabonete. Ambiente preparado. Conjunção lunar completa.
Primeira passagem:
a lâmina desliza surpreendentemente bem. Claro, não chega ao refinamento escorregadio de um sabão Ruas Mens Grooming, mas entrega muito mais do que eu esperava de uma espuma em lata que provavelmente acompanhou metade dos barbeiros dos Estados Unidos durante a Grande Depressão.
E sim, por ser pente aberto, quase não sobram restos de espuma ou barba na máquina. Ponto positivo para o Gillette centenário.
Até aqui, nenhuma catástrofe.
Nada de pele seca.
Nada de sensação áspera.
Nada de sofrimento litúrgico como alguns pregadores do wet shaving moderno gostam de anunciar nos púlpitos da internet.
Segunda passagem:
absolutamente agradável.
Nesse ponto, a barba já havia sido quase totalmente obliterada. O Old Type continua sendo uma máquina brutalmente eficiente. É impressionante como esses aparelhos antigos parecem ter sido desenhados numa época em que conforto era considerado um detalhe secundário… ou um conceito simplesmente inexistente.
Passei a mão no rosto procurando retoques.
E ali estava:
um rosto quase tão limpo quanto a consciência de um bom cristão.
Mas resolvi ir além.
Por que não uma terceira passagem?
Mais uma fina camada de Barbasol.
Old Type em mãos.
E então aconteceu.
Do nada.
Subitamente.
Depois de alguns segundos, o feedback auditivo desapareceu.
Silêncio absoluto.
Os pelos haviam sido sumariamente removidos da existência, como pecadores expulsos de um sermão particularmente inspirado.
E uma observação final:
Uma das coisas que mais gosto nesses Gillette antigos é a manobrabilidade absurda. Cabeça baixa, cabo na medida certa, equilíbrio impecável. O aparelho entra nos cantos do rosto com uma facilidade impressionante. Debaixo do nariz, então, parece feito sob medida. Há uma sensação constante de precisão e agilidade que torna o barbear muito mais natural. Já certas máquinas modernas parecem seguir a filosofia oposta: cabeças cada vez mais altas, cabos cada vez mais longos e a precisão de uma carreta tentando fazer retorno em rua de bairro.
E talvez seja exatamente isso que torna esses aparelhos antigos tão especiais: eles não tentavam transformar o barbear em uma experiência sensorial transcendental digna de um retiro espiritual tailandês. Eles apenas funcionavam. E funcionavam assustadoramente bem.
Conclusão?
A Barbasol talvez nunca ganhe status cult entre os oráculos do barbear clássico gourmetizado. Mas, depois desse teste, confesso: entendi perfeitamente por que ela atravessou mais de um século sem desaparecer.
Enquanto isso, o Old Type continua fazendo o que sempre fez:
Transformando barba em lembrança e arrancando um sorriso do rosto velho, feio e cansado deste humilde confrade a cada barbear.
Abs,
Igor.
(Esta mensagem foi modificada pela última vez a: 5 horas atrás por Maximus Brow.)
Há coisas que atravessam gerações com dignidade. Outras apenas sobrevivem porque ninguém teve coragem de aposentá-las. E nesse seleto grupo está a gloriosa Barbasol, espuma em lata que há mais de 100 anos segue firme no mercado americano, provavelmente sustentada por veteranos de guerra, pais de família do Meio-Oeste, homens mentalmente instáveis como eu e, claro, por aquela icônica cena de Jurassic Park, onde a lata aparece rolando na lama enquanto um T-Rex transforma engenheiros em lanche da tarde.
Aliás, é quase impossível não imaginar que, no começo do século XX, uma quantidade absurda de homens fazia a barba exatamente assim: uma generosa camada de Barbasol e um Gillette Old Type trabalhando no rosto do cidadão como um pelotão de infantaria invadindo território inimigo.
E sejamos honestos: talvez esse tenha sido o verdadeiro barbear clássico raiz. Nada de sabão artesanal curado por 14 luas sob cantos gregorianos. Nada de pincel feito com pelos de um texugo emocionalmente equilibrado. Qualquer homem comum da década de 1920 queria apenas duas coisas: remover os pelos da face e parecer minimamente civilizado para os vizinhos puritanos.
Pois bem.
Hoje resolvi revisitar esse pequeno encontro entre a praticidade industrial americana e a eficiência quase militar de um open comb com mais de 100 anos.
Espuma utilizada: Barbasol tradicional, lata de 283g. Baixa, parruda e com aparência de produto que provavelmente também serve para lubrificar tratores agrícolas.
A propósito, comparada às espumas da Bozano e Nivea, a Barbasol parece ter sido desenvolvida pela divisão alimentícia da NASA. A espuma é densa, rica e absurdamente volumosa. Um aviso aos confrades: o botão da válvula é praticamente um dispositivo bélico. Um toque mínimo já libera uma quantidade de espuma quase ofensiva, como se a lata estivesse aguardando aquele momento desde a Segunda Guerra Mundial.
A máquina escolhida foi um Gillette Old Type, porque seria moralmente questionável usar algo com menos de 100 anos nessa experiência.
A lâmina… bem… uma Parker moderna.
Peço perdão aos puristas.
Banho quente tomado. Rosto devidamente esfoliado com sabonete. Ambiente preparado. Conjunção lunar completa.
Primeira passagem:
a lâmina desliza surpreendentemente bem. Claro, não chega ao refinamento escorregadio de um sabão Ruas Mens Grooming, mas entrega muito mais do que eu esperava de uma espuma em lata que provavelmente acompanhou metade dos barbeiros dos Estados Unidos durante a Grande Depressão.
E sim, por ser pente aberto, quase não sobram restos de espuma ou barba na máquina. Ponto positivo para o Gillette centenário.
Até aqui, nenhuma catástrofe.
Nada de pele seca.
Nada de sensação áspera.
Nada de sofrimento litúrgico como alguns pregadores do wet shaving moderno gostam de anunciar nos púlpitos da internet.
Segunda passagem:
absolutamente agradável.
Nesse ponto, a barba já havia sido quase totalmente obliterada. O Old Type continua sendo uma máquina brutalmente eficiente. É impressionante como esses aparelhos antigos parecem ter sido desenhados numa época em que conforto era considerado um detalhe secundário… ou um conceito simplesmente inexistente.
Passei a mão no rosto procurando retoques.
E ali estava:
um rosto quase tão limpo quanto a consciência de um bom cristão.
Mas resolvi ir além.
Por que não uma terceira passagem?
Mais uma fina camada de Barbasol.
Old Type em mãos.
E então aconteceu.
Do nada.
Subitamente.
Depois de alguns segundos, o feedback auditivo desapareceu.
Silêncio absoluto.
Os pelos haviam sido sumariamente removidos da existência, como pecadores expulsos de um sermão particularmente inspirado.
E uma observação final:
Uma das coisas que mais gosto nesses Gillette antigos é a manobrabilidade absurda. Cabeça baixa, cabo na medida certa, equilíbrio impecável. O aparelho entra nos cantos do rosto com uma facilidade impressionante. Debaixo do nariz, então, parece feito sob medida. Há uma sensação constante de precisão e agilidade que torna o barbear muito mais natural. Já certas máquinas modernas parecem seguir a filosofia oposta: cabeças cada vez mais altas, cabos cada vez mais longos e a precisão de uma carreta tentando fazer retorno em rua de bairro.
E talvez seja exatamente isso que torna esses aparelhos antigos tão especiais: eles não tentavam transformar o barbear em uma experiência sensorial transcendental digna de um retiro espiritual tailandês. Eles apenas funcionavam. E funcionavam assustadoramente bem.
Conclusão?
A Barbasol talvez nunca ganhe status cult entre os oráculos do barbear clássico gourmetizado. Mas, depois desse teste, confesso: entendi perfeitamente por que ela atravessou mais de um século sem desaparecer.
Enquanto isso, o Old Type continua fazendo o que sempre fez:
Transformando barba em lembrança e arrancando um sorriso do rosto velho, feio e cansado deste humilde confrade a cada barbear.
Abs,
Igor.
