Prezado Stenio,
Encontro-me, no presente momento, imerso em uma cruzada doméstica de elevada complexidade logística: a árdua missão de consumir, com a devida dignidade, o vasto arsenal de produtos de barbear que jaz estocado em meus domínios.
Arrisco afirmar que, caso eu ouse transpor a soleira de casa portando mais um singelo sabão, uma loção adicional ou — que os céus me protejam — um novo velho barbeador (pois, como bem sabes, nutro uma devoção que beira a insanidade pelos Gillette vintage), serei prontamente julgado, condenado e sumariamente escurraçado por aquela que detém o poder supremo do lar… minha senhora… ops, esposa.
Para fins de inventário e eventual testemunho histórico, eis o cenário atual:
Nos sabões: o honroso conjunto Hero, do nobre André do Barba Tradicional, e também o conjunto da Rockwell, cujas propriedades olfativas e desempenho técnico beiram a excelência.
Nos cremes: o clássico Nivea — de performance respeitável, ainda que com fragrância que remete, de forma quase afetiva, ao necessário cuidado das avós — e o intrépido Bozano, eficiente, porém evocando memórias olfativas curiosamente próximas a um desodorante para os pés.
Nos géis: o inigualável Gillette King C. Gillette, que, sem qualquer pudor retórico, ouso classificar como o melhor gel de barbear que já tive a honra de utilizar.
E, dispersos como relíquias de um colecionador compulsivo, mais alguns itens cuja mera enumeração poderia comprometer minha defesa perante o tribunal conjugal.
Confesso, contudo, que meu coração ainda anseia por completar o panteão com toda a linha da Ruas Mens Grooming. Por ora, possuo apenas a loção de Lavanda, que, em um golpe de simplicidade e perfeição, conquistou o posto de favorita absoluta.
Assim sigo, entre o desejo e a prudência, equilibrando-me na tênue linha que separa o colecionador entusiasta do cidadão oficialmente proibido de adquirir “só mais um”.
E, como se não bastasse tal cenário de já delicado equilíbrio conjugal, informo-vos que, por volta de segunda-feira, 04/05, deverá chegar às minhas mãos trêmulas e ansiosas uma lata — isto mesmo, uma lata! — de espuma de barbear da centenária Barbasol. Há tempos nutro o desejo de submeter tal relíquia industrial, com mais de um século de existência, ao rigoroso crivo de minha rotina.
E antes que os nobres foristas, guardiões quase inquisitoriais da santa ortodoxia dos sabões e cremes, surjam empunhando tochas e estacas de madeira, prontos a cravá-las em meu coração herege por ousar flertar com a praticidade aerossolizada, antecipo minha defesa: trata-se de ciência, de experimentação, de puro espírito investigativo — e, ouso dizer, de coragem.
Se ao final serei absolvido ou banido do seleto convívio dos tradicionalistas, somente o tempo (e minha pele) dirá. Até lá, sigo firme, ainda que sob risco iminente de julgamento doméstico e comunitário.
Com elevada consideração (e certa apreensão),
MB
Encontro-me, no presente momento, imerso em uma cruzada doméstica de elevada complexidade logística: a árdua missão de consumir, com a devida dignidade, o vasto arsenal de produtos de barbear que jaz estocado em meus domínios.
Arrisco afirmar que, caso eu ouse transpor a soleira de casa portando mais um singelo sabão, uma loção adicional ou — que os céus me protejam — um novo velho barbeador (pois, como bem sabes, nutro uma devoção que beira a insanidade pelos Gillette vintage), serei prontamente julgado, condenado e sumariamente escurraçado por aquela que detém o poder supremo do lar… minha senhora… ops, esposa.
Para fins de inventário e eventual testemunho histórico, eis o cenário atual:
Nos sabões: o honroso conjunto Hero, do nobre André do Barba Tradicional, e também o conjunto da Rockwell, cujas propriedades olfativas e desempenho técnico beiram a excelência.
Nos cremes: o clássico Nivea — de performance respeitável, ainda que com fragrância que remete, de forma quase afetiva, ao necessário cuidado das avós — e o intrépido Bozano, eficiente, porém evocando memórias olfativas curiosamente próximas a um desodorante para os pés.
Nos géis: o inigualável Gillette King C. Gillette, que, sem qualquer pudor retórico, ouso classificar como o melhor gel de barbear que já tive a honra de utilizar.
E, dispersos como relíquias de um colecionador compulsivo, mais alguns itens cuja mera enumeração poderia comprometer minha defesa perante o tribunal conjugal.
Confesso, contudo, que meu coração ainda anseia por completar o panteão com toda a linha da Ruas Mens Grooming. Por ora, possuo apenas a loção de Lavanda, que, em um golpe de simplicidade e perfeição, conquistou o posto de favorita absoluta.
Assim sigo, entre o desejo e a prudência, equilibrando-me na tênue linha que separa o colecionador entusiasta do cidadão oficialmente proibido de adquirir “só mais um”.
E, como se não bastasse tal cenário de já delicado equilíbrio conjugal, informo-vos que, por volta de segunda-feira, 04/05, deverá chegar às minhas mãos trêmulas e ansiosas uma lata — isto mesmo, uma lata! — de espuma de barbear da centenária Barbasol. Há tempos nutro o desejo de submeter tal relíquia industrial, com mais de um século de existência, ao rigoroso crivo de minha rotina.
E antes que os nobres foristas, guardiões quase inquisitoriais da santa ortodoxia dos sabões e cremes, surjam empunhando tochas e estacas de madeira, prontos a cravá-las em meu coração herege por ousar flertar com a praticidade aerossolizada, antecipo minha defesa: trata-se de ciência, de experimentação, de puro espírito investigativo — e, ouso dizer, de coragem.
Se ao final serei absolvido ou banido do seleto convívio dos tradicionalistas, somente o tempo (e minha pele) dirá. Até lá, sigo firme, ainda que sob risco iminente de julgamento doméstico e comunitário.
Com elevada consideração (e certa apreensão),
MB
