Prezado J. Américo,
vossa observação permanece irrepreensível, quase um farol de lucidez em meio às névoas do entusiasmo consumista. Em minhas andanças por fóruns além-mar, deparei-me com relatos que descrevem tal barbeador como um curioso paradoxo: ostenta o nobre estandarte do pente aberto, mas atua com a mansidão de um cordeiro recém-tosquiado dos closed komb.
E eis que surge o ponto que mais me causou espanto: sua leveza. Não uma leveza honesta, equilibrada como a de um Gillette Tech, mas algo próximo de uma experiência metafísica — um objeto que parece flutuar entre os dedos, como se tivesse receio de assumir qualquer compromisso com a gravidade ou, pior, com a barba que deveria enfrentar. Um instrumento que, ao invés de inspirar firmeza, sugere delicadeza excessiva, quase pedindo desculpas antes de tocar o rosto. um carrasco que, antes de cumprir sua função, inclina a cabeça, pede desculpas pela inconveniência e segura o machado com tanto constrangimento que quase se convence a não executar ninguém — uma figura cuja própria natureza nega o ato que deveria definir sua existência
Como sou adepto confesso da sensação da lâmina e aprecio barbeadores com personalidade mais incisiva, optei pelo Parker 48R — este sim, um artefato que não se envergonha de sua própria existência. Pesado, sólido, quase insolente em sua robustez, como se dissesse: “vim para trabalhar e incetar medo em quem me manipula.
Considerando ainda que já possuo um respeitável arsenal de open combs — Gillette Old Type, Gillette New BR, Gillette ABC, Gillette New Regent e o sempre destemido Muhle R41 — todos com desempenho que beira o entusiasmo, pareceu-me que o Merkur 15C (ou seu irmão 25C) talvez me oferecesse mais contemplação estética do que satisfação prática.
Dizei-me, se vos aprouver: tendes vós experiência com outros pente aberto? Pois não deixa de ser curioso — quase uma contradição filosófica — que um instrumento concebido para ser mais agressivo venha com a promessa de suavidade exemplar. É como anunciar, com toda a pompa, um Fusca com alma de Ferrari… uma ideia encantadora, sem dúvida, mas que desafia as leis mais básicas da realidade mecânica.
E assim, após estas divagações talvez mais longas do que necessárias, retiro-me com a dignidade possível. Quando o Parker finalmente estiver em minhas mãos, retornarei para relatar, com a devida franqueza, se ele honra ou não as expectativas que ora deposito sobre suas formas metálicas.
Com respeitosos cumprimentos,
MB
vossa observação permanece irrepreensível, quase um farol de lucidez em meio às névoas do entusiasmo consumista. Em minhas andanças por fóruns além-mar, deparei-me com relatos que descrevem tal barbeador como um curioso paradoxo: ostenta o nobre estandarte do pente aberto, mas atua com a mansidão de um cordeiro recém-tosquiado dos closed komb.
E eis que surge o ponto que mais me causou espanto: sua leveza. Não uma leveza honesta, equilibrada como a de um Gillette Tech, mas algo próximo de uma experiência metafísica — um objeto que parece flutuar entre os dedos, como se tivesse receio de assumir qualquer compromisso com a gravidade ou, pior, com a barba que deveria enfrentar. Um instrumento que, ao invés de inspirar firmeza, sugere delicadeza excessiva, quase pedindo desculpas antes de tocar o rosto. um carrasco que, antes de cumprir sua função, inclina a cabeça, pede desculpas pela inconveniência e segura o machado com tanto constrangimento que quase se convence a não executar ninguém — uma figura cuja própria natureza nega o ato que deveria definir sua existência
Como sou adepto confesso da sensação da lâmina e aprecio barbeadores com personalidade mais incisiva, optei pelo Parker 48R — este sim, um artefato que não se envergonha de sua própria existência. Pesado, sólido, quase insolente em sua robustez, como se dissesse: “vim para trabalhar e incetar medo em quem me manipula.
Considerando ainda que já possuo um respeitável arsenal de open combs — Gillette Old Type, Gillette New BR, Gillette ABC, Gillette New Regent e o sempre destemido Muhle R41 — todos com desempenho que beira o entusiasmo, pareceu-me que o Merkur 15C (ou seu irmão 25C) talvez me oferecesse mais contemplação estética do que satisfação prática.
Dizei-me, se vos aprouver: tendes vós experiência com outros pente aberto? Pois não deixa de ser curioso — quase uma contradição filosófica — que um instrumento concebido para ser mais agressivo venha com a promessa de suavidade exemplar. É como anunciar, com toda a pompa, um Fusca com alma de Ferrari… uma ideia encantadora, sem dúvida, mas que desafia as leis mais básicas da realidade mecânica.
E assim, após estas divagações talvez mais longas do que necessárias, retiro-me com a dignidade possível. Quando o Parker finalmente estiver em minhas mãos, retornarei para relatar, com a devida franqueza, se ele honra ou não as expectativas que ora deposito sobre suas formas metálicas.
Com respeitosos cumprimentos,
MB
