Estimule virtudes, não vaidades.

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Estimule virtudes, não vaidades.

Existe uma diferença silenciosa entre o que constrói caráter e o que constrói imagem.

Virtudes não pedem plateia. Elas aparecem na repetição dos dias comuns, na escolha correta quando ninguém está vendo, na forma como alguém trata os outros sem precisar se gabar disso depois. Vaidade, por outro lado, precisa ser percebida. Vive da comparação, do reconhecimento e da necessidade constante de aprovação externa.

Com o tempo, é fácil confundir as duas coisas. O mundo moderno recompensa o que aparece, não necessariamente o que é sólido. E, aos poucos, o valor das atitudes passa a depender mais da aparência do que da essência.

Mas existem pessoas que nos lembram do contrário. Pessoas que não precisaram explicar nada para ensinar tudo.

Meu pai faleceu em 1992. Era um homem simples, silencioso e profundamente honesto. Saía de casa todos os dias às 4 da madrugada e voltava por volta das 9 da noite. Trabalhava muito. Muito mesmo. Fazia horas extras sem reclamar, não por ambição, mas por necessidade. Era assim que sustentava uma casa e criava sete filhos.

Nunca o vi gritando. Nunca o vi sendo agressivo ou desrespeitoso com ninguém. Era firme quando precisava ser, mas nunca deixou de ser tranquilo. Tinha uma forma de viver que não precisava de explicação.

No bairro, era respeitado sem esforço. Em casa, era amado sem condição.

Ele não gostava de política. Amava o Corinthians. E tinha hábitos simples, como fazer a barba dia sim, dia não, sempre com uma calma que hoje parece de outro tempo. Não fazia isso por vaidade. Era apenas parte da rotina de um homem que fazia o necessário, sem transformar isso em mais do que era.

Foi com ele que vi, pela primeira vez, um barbeador de segurança. Um Gillette TTO. Eu tinha uns 7 ou 8 anos. E aquilo não significava nada para mim na época. Era só meu pai se barbeando para o trabalho no dia seguinte.

O que ficou, com o tempo, não foi o objeto. Foi a imagem dele em silêncio, vivendo o próprio dia.

Minha mãe comentava que a pele dele ficava sempre muito macia depois do barbear. Lembro disso como quem lembra de algo simples demais para ter importância — e, ao mesmo tempo, grande demais para ser esquecido.

Hoje, mais de 30 anos depois da sua partida, ainda existe uma falta que não se resolve com o tempo. Ela apenas aprende a conviver com a ausência.

Meu pai partiu aos 41 anos. Muito novo. Novo demais.

E talvez por isso algumas coisas tenham ficado tão claras para mim: o que é verdadeiro não precisa ser anunciado. O que é valioso não precisa ser exibido. E o que é amor, quando é vivido de forma simples e constante, não desaparece — apenas continua existindo de outro jeito dentro da gente.

Para você que ainda tem pai, avô ou alguém assim por perto: não adie presença. Não transforme o tempo em algo garantido. Às vezes, a última conversa não avisa que será a última, nem o último abraço, nem o último até logo.

Meu pai não deixou discursos. Deixou uma vida inteira que continua falando por ele. E uma saudade que não aprende a ficar menor — apenas a conviver com quem ficou.

abs,

Igor.
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