O dia em que o Lucão quase demoliu uma barbearia gourmet.

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O dia em que o Lucão quase demoliu uma barbearia gourmet.

Todo homem tem um momento de virada na vida.

Uns casam.

Outros compram um carro.

Eu descobri o barbear tradicional depois de quase provocar um sinistro estrutural numa barbearia gourmet.

Na época eu pesava respeitáveis 140 kg distribuídos em um glorioso metro e setenta e dois de pura teimosia.

Entrei naquelas barbearias modernas onde uma barba custa o mesmo que uma pequena reforma residencial.

Madeira de demolição.

Lâmpadas Edison.

Whisky sobre a bancada.

Música indie tão baixa que parecia que o cantor estava pedindo desculpas por existir.

Fui recebido por um barbeiro de avental de couro, luvas de látex, tatuagens até o pescoço e uma barba que certamente era mais bem cuidada do que um cão de madame.

— Boa tarde, meu querido. Vamos cuidar desse visual?

Respondi:

— Se a cadeira aguentar, vamos.

Ele riu.

Eu não.

Quando sentei, a cadeira fez um barulho que lembrava um submarino afundando.

*CREEEEEEC...*

O barbeiro congelou.

O rapaz da recepção levantou a cabeça.

O cliente do lado tirou discretamente os pés do chão.

Até a cafeteira ficou em silêncio.

O barbeiro olhou para a cadeira.

Depois olhou para mim.

Depois olhou novamente para a cadeira.

Naquele instante, ele não estava pensando em barba.

Estava fazendo cálculo estrutural.

Mesmo assim, reclinou a cadeira.

Cinco graus.

Parou.

Mais três.

Parou de novo.

Respirou fundo.

Fez uma prece.

Quando finalmente conseguiu me deitar, parecia que estavam estacionando uma carreta em vaga de shopping.

A cadeira gemeu.

Eu também.

Ele colocou a toalha quente.

Eu comecei a pensar se o meu seguro de vida estava em dia.

Depois, espuma.

Pensei se minha mãe sentiria muita falta de mim.

Depois pegou uma navalha que brilhava como uma katana samurai.

Calculei mentalmente quantas pessoas compareceriam ao meu funeral. Não chegaram a muitas.

Fez o primeiro movimento.

A cadeira respondeu:

*TEC!*

Eu travei de um jeito que não passava nem sinal de Wi-Fi.

Ele parou.

Olhou para baixo.

Um dos parafusos havia decidido que já tinha contribuído o suficiente para a sociedade.

Nessa altura, havia três barbeiros observando a operação.

Pareciam uma equipe da Defesa Civil... ou um grupo de biólogos discutindo a melhor estratégia para desencalhar uma baleia no litoral do Rio Grande do Sul.

— Empurra um pouquinho pra cá...

— Não, segura daí...

— Traz a chave Allen!

Eu já esperava aparecer alguém com um macaco hidráulico.

Meu nível de arrependimento já tinha ultrapassado a estratosfera e entrado em órbita.

No fim, deu tudo certo.

Saí liso.

Bonito.

Ileso.

E profundamente traumatizado.

Na semana seguinte, resolvi pesquisar se existia um jeito melhor de fazer barba em casa.

Foi quando encontrei o fórum Barbear Tradicional (BTB).

Descobri barbeadores vintage.

Pincéis.

Sabões.

Lâminas.

Aprendi ângulo.

Pressão.

Preparação da pele.

E um monte de gente bacana que tenta ajudar os novatos, como eu.

Pela primeira vez na vida, fazer a barba deixou de ser uma luta corporal.

Nunca mais paguei para um cara de luvas de látex colocar minha vida — e a integridade de uma cadeira italiana de dez mil reais — em risco.

Hoje faço minha barba tranquilamente em casa.

Sem fila.

Sem café gourmet.

Sem música alternativa.

Sem aqueles olhares discretos do tipo:

"Rapaz... será que essa cadeira aguenta esse mamute?"

E, principalmente...

Sem deixar um barbeiro desesperado tentando descobrir a capacidade máxima da cadeira antes de me mandar sentar.

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**Obs.:** Este relato foi inspirado na experiência de um amigo que acompanha o BTB. Ele me autorizou a transformar o episódio em humor. Apesar dos constrangimentos que às vezes enfrenta por causa do peso, é um sujeito extremamente bem-humorado e levou toda a situação na esportiva.

Espero que em breve ele apareça por aqui e troque idéias com todos nós.

abs,

Igor.
5 curtida(s) para esse Post:
  • felipeafc1, fsmishima, Gustavo CDL, Joao Americo, thony
Baita história, certamente se ele vier ao fórum será muito bem recebido, quanto mais pessoas melhor.

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1 curtida(s) para esse Post:
  • Joao Americo
Adorei a história, até pq já fui peso pesado a uns anos. ... .. mas a fragilidade de meu tornozelo (que vivia torcido ) .e levou a controlar via dieta e chegar a níveis aceitáveis pro meu tornozelo (essa dieta daria um livro, cheia de pesadelos com churrascos, coxinhas e outras guloseimas que meu subconsciente se recusava esquecer).



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