A véia dos gatos.
Aquela senhora que mora sozinha, já passou dos 60, e cuja casa começou com dois gatos.
"Ah, são só dois."
"Só pra fazer companhia."
Depois vieram mais três.
Depois mais quatro.
Depois era vista na rua de madrugada chamando gato pelo nome:
"Pelé... o Pelé... onde você tá, meu bem?"
Quando alguém percebeu, ela já tinha 27 gatos, três caixas de areia na sala e uma explicação perfeitamente racional para cada um deles.
Pois bem.
O Whatshaver corre exatamente o mesmo risco.
Só que, em vez de gatos, ele acumula barbeadores.
E tudo começa numa feira de antiguidades.
Você está andando tranquilamente quando, no canto mais esquecido da banca, encontra uma Gillette antiga.
Toda acabada.
Suja.
Oxidada.
Com aparência de quem passou os últimos 50 anos jogada no fundo de uma gaveta mofada, num banheiro esquecido.
Para qualquer pessoa normal, aquilo não vale absolutamente nada.
Zero.
A pessoa olha e pensa:
"Que porcaria."
O Whatshaver olha e pensa:
"Meu Deus... olha o entalhe deste cabo."
Pronto.
Acabou.
O cérebro já entrou em modo resgate.
É o mesmo mecanismo psicológico da feira de adoção.
Você vê um gato com uma pata machucada, um cachorro caolho ou um bichinho abandonado olhando para você daquele jeito e o cérebro simplesmente desliga.
Cinco minutos depois, você está com ele no colo.
Com a Gillette é igual.
Você nem estava procurando barbeador.
Mas agora está perguntando:
"Quanto você faz nessa?"
O vendedor fala o preço.
Você nem negocia.
Faz o Pix imediatamente.
Vai que o vendedor muda de ideia e você perde a oportunidade de salvar aquela pobre safety razor.
E volta para casa com mais um "filho".
Sua esposa vem atrás, em silêncio.
Braços cruzados.
Bico de 30 centímetros.
Aquela expressão que não precisa de legenda e que, pelo menos uma vez na vida, todo apreciador de barbear clássico já viu.
Você conhece aquela expressão.
É a expressão de quem está fazendo mentalmente a conta de quanto custou o seu hobby nos últimos cinco anos.
E você, completamente sem vergonha, ainda tenta justificar:
"Mas, amor... olha o estado dela. Eu precisava salvar."
Salvar.
Essa é a palavra.
Nunca compramos.
Resgatamos.
Não acumulamos.
Preservamos.
Não temos problema.
Temos responsabilidade histórica.
E, aparentemente, também temos algum tipo de missão humanitária que ninguém nos pediu.
E é assim que começa a doença.
Primeiro vem uma Gillette.
Depois você compra outra porque "é uma peça única".
Depois uma terceira porque "essa é uma variação".
Depois aparece um estojo.
Depois um cabo.
Depois uma máquina que você nem achava bonita, mas que estava "barata demais para deixar passar".
Quando percebe, já existe uma gaveta específica.
Depois uma caixa específica.
Um espaço dedicado para a família feliz que você juntou nos últimos anos.
Depois uma planilha.
E quando chega ao ponto de ter uma planilha para controlar os barbeadores, meu amigo...
Você não é mais colecionador.
Você é a véia dos gatos. Ou o véio dos barbeadores. O que, no final, dá no mesmo.
A diferença é que ela precisa explicar por que tem 27 gatos.
Nós precisamos explicar por que temos 27 máquinas cuja única função é remover pelos do rosto.
E ainda fazemos isso com convicção:
"Mas essa é diferente."
Claro que é.
Todas são.
Essa é justamente a parte preocupante.
O problema não é comprar uma Gillette.
O problema é que, depois da primeira, você começa a enxergar necessidade onde uma pessoa normal só enxerga sucata.
O verdadeiro estágio terminal do Whatshaver acontece quando você entra numa feira e começa a olhar para as bancas não procurando alguma coisa que queira comprar, mas alguma coisa que precise ser salva.
Você já não pergunta:
"O que eu quero?"
Você pergunta:
"Qual delas tem mais potencial de salvamento?"
E aí o vendedor tira debaixo da mesa uma Gillette de 1962, preta de sujeira, faltando peça e com o mecanismo travado.
Você olha.
Ela olha para você.
A conexão acontece.
Sua esposa percebe.
"Nem pense."
Você já está abrindo o celular e pensando como ela vai ficar linda quando estiver limpa.
"Quanto é?"
É assim que um homem normal termina o domingo.
E é assim que nasce mais um pai de barbeador... ou de pet...
Ou a morte de um casamento.
Porque o problema é que, depois da primeira, ela nunca vem sozinha.
Uma vem da feira.
Outra aparece no eBay.
Outra estava "baratinha".
Outra é "rara".
Outra "não podia deixar passar".
E, quando você percebe, sua gaveta já parece um orfanato de Gillettes que você jurou que ia restaurar.
Eu, por minha vez, tenho 20 máquinas e nenhum pet...
Ou melhor, minha filha tem um: um peixinho Betta.
Bem, acho que depois desta revelação, não posso mais ser chamado de véio dos gatos...
Ou pai dos barbeadores...
Ou o doido das Gillettes vintage.
Talvez eu seja apenas um homem de meia-idade que encontrou uma maneira socialmente aceitável de substituir gatos por aparelhos de barbear.
Bem, você entendeu, né?
Abs,
Igor.
Aquela senhora que mora sozinha, já passou dos 60, e cuja casa começou com dois gatos.
"Ah, são só dois."
"Só pra fazer companhia."
Depois vieram mais três.
Depois mais quatro.
Depois era vista na rua de madrugada chamando gato pelo nome:
"Pelé... o Pelé... onde você tá, meu bem?"
Quando alguém percebeu, ela já tinha 27 gatos, três caixas de areia na sala e uma explicação perfeitamente racional para cada um deles.
Pois bem.
O Whatshaver corre exatamente o mesmo risco.
Só que, em vez de gatos, ele acumula barbeadores.
E tudo começa numa feira de antiguidades.
Você está andando tranquilamente quando, no canto mais esquecido da banca, encontra uma Gillette antiga.
Toda acabada.
Suja.
Oxidada.
Com aparência de quem passou os últimos 50 anos jogada no fundo de uma gaveta mofada, num banheiro esquecido.
Para qualquer pessoa normal, aquilo não vale absolutamente nada.
Zero.
A pessoa olha e pensa:
"Que porcaria."
O Whatshaver olha e pensa:
"Meu Deus... olha o entalhe deste cabo."
Pronto.
Acabou.
O cérebro já entrou em modo resgate.
É o mesmo mecanismo psicológico da feira de adoção.
Você vê um gato com uma pata machucada, um cachorro caolho ou um bichinho abandonado olhando para você daquele jeito e o cérebro simplesmente desliga.
Cinco minutos depois, você está com ele no colo.
Com a Gillette é igual.
Você nem estava procurando barbeador.
Mas agora está perguntando:
"Quanto você faz nessa?"
O vendedor fala o preço.
Você nem negocia.
Faz o Pix imediatamente.
Vai que o vendedor muda de ideia e você perde a oportunidade de salvar aquela pobre safety razor.
E volta para casa com mais um "filho".
Sua esposa vem atrás, em silêncio.
Braços cruzados.
Bico de 30 centímetros.
Aquela expressão que não precisa de legenda e que, pelo menos uma vez na vida, todo apreciador de barbear clássico já viu.
Você conhece aquela expressão.
É a expressão de quem está fazendo mentalmente a conta de quanto custou o seu hobby nos últimos cinco anos.
E você, completamente sem vergonha, ainda tenta justificar:
"Mas, amor... olha o estado dela. Eu precisava salvar."
Salvar.
Essa é a palavra.
Nunca compramos.
Resgatamos.
Não acumulamos.
Preservamos.
Não temos problema.
Temos responsabilidade histórica.
E, aparentemente, também temos algum tipo de missão humanitária que ninguém nos pediu.
E é assim que começa a doença.
Primeiro vem uma Gillette.
Depois você compra outra porque "é uma peça única".
Depois uma terceira porque "essa é uma variação".
Depois aparece um estojo.
Depois um cabo.
Depois uma máquina que você nem achava bonita, mas que estava "barata demais para deixar passar".
Quando percebe, já existe uma gaveta específica.
Depois uma caixa específica.
Um espaço dedicado para a família feliz que você juntou nos últimos anos.
Depois uma planilha.
E quando chega ao ponto de ter uma planilha para controlar os barbeadores, meu amigo...
Você não é mais colecionador.
Você é a véia dos gatos. Ou o véio dos barbeadores. O que, no final, dá no mesmo.
A diferença é que ela precisa explicar por que tem 27 gatos.
Nós precisamos explicar por que temos 27 máquinas cuja única função é remover pelos do rosto.
E ainda fazemos isso com convicção:
"Mas essa é diferente."
Claro que é.
Todas são.
Essa é justamente a parte preocupante.
O problema não é comprar uma Gillette.
O problema é que, depois da primeira, você começa a enxergar necessidade onde uma pessoa normal só enxerga sucata.
O verdadeiro estágio terminal do Whatshaver acontece quando você entra numa feira e começa a olhar para as bancas não procurando alguma coisa que queira comprar, mas alguma coisa que precise ser salva.
Você já não pergunta:
"O que eu quero?"
Você pergunta:
"Qual delas tem mais potencial de salvamento?"
E aí o vendedor tira debaixo da mesa uma Gillette de 1962, preta de sujeira, faltando peça e com o mecanismo travado.
Você olha.
Ela olha para você.
A conexão acontece.
Sua esposa percebe.
"Nem pense."
Você já está abrindo o celular e pensando como ela vai ficar linda quando estiver limpa.
"Quanto é?"
É assim que um homem normal termina o domingo.
E é assim que nasce mais um pai de barbeador... ou de pet...
Ou a morte de um casamento.
Porque o problema é que, depois da primeira, ela nunca vem sozinha.
Uma vem da feira.
Outra aparece no eBay.
Outra estava "baratinha".
Outra é "rara".
Outra "não podia deixar passar".
E, quando você percebe, sua gaveta já parece um orfanato de Gillettes que você jurou que ia restaurar.
Eu, por minha vez, tenho 20 máquinas e nenhum pet...
Ou melhor, minha filha tem um: um peixinho Betta.
Bem, acho que depois desta revelação, não posso mais ser chamado de véio dos gatos...
Ou pai dos barbeadores...
Ou o doido das Gillettes vintage.
Talvez eu seja apenas um homem de meia-idade que encontrou uma maneira socialmente aceitável de substituir gatos por aparelhos de barbear.
Bem, você entendeu, né?
Abs,
Igor.
