Por que os homens vivem menos?
A ciência já encontrou várias explicações. Genética, comportamento, acidentes, doenças cardiovasculares, alimentação, estresse, hábitos de vida, tentativa frenética de se divertir com tudo?
Eu tenho outra teoria.
O problema começa quando o homem descobre que quase tudo pode esperar.
Não é exatamente negligência. É uma habilidade. Homem é especialista em postergar problema.
A torneira começa a pingar.
“Depois eu vejo.”
O botão do controle remoto precisa apertar três vezes.
“É a pilha.”
O tênis começa a abrir na lateral.
“Dá para usar mais um pouco.”
O carro acende uma luz no painel.
“Essa aí sempre acende.”
Não é que ele ignore o problema. Ele simplesmente estabelece prioridades.
E, quando o assunto é o próprio corpo, o método continua funcionando perfeitamente.
Acorda com uma dor estranha.
“Deve ser jeito que eu dormi.”
Dura três dias.
“Deve ser postura.”
Dura duas semanas.
“Deve ser coluna.”
Depois começa a incomodar o braço.
“É porque estou trabalhando muito.”
E assim o sujeito vai acumulando pequenos avisos, até que um dia, incapacitado para sair de rolezinho com os brothers, decide finalmente procurar ajuda.
O médico pergunta:
“Há quanto tempo você está sentindo isso?”
O homem faz uma pequena pausa.
“Uns oito meses.”
“E por que não veio antes?”
O homem olha para ele com a serenidade de quem realmente não entende a pergunta.
“Porque não estava tão ruim.”
Talvez esteja aí uma das razões.
Homem não costuma medir o perigo pelo que está acontecendo. Mede pelo quanto aquilo está atrapalhando.
Se consegue andar, está tudo bem.
Se consegue trabalhar, está tudo bem.
Se consegue ir no churras, está tudo bem.
Se consegue levantar da cadeira sem gemer, está excelente.
O curioso é que o homem sabe fazer manutenção preventiva.
Troca óleo. Calibra pneu. Faz backup. Atualiza celular.
Pesquisa durante três horas antes de comprar qualquer equipamento.
Pode desmontar um barbeador de 60 anos, limpar cada peça, estudar o código de fabricação e discutir durante três horas se determinado cabo é original.
Mas, se sentir alguma coisa estranha no próprio corpo, toda essa capacidade investigativa desaparece.
A análise científica termina assim:
“Vou abrir o Google.”
Três minutos depois:
“É gases.”
Enquanto assiste ao jogo, pensa:
“Não devia ter repetido aquela feijoada três vezes.”
E pronto.
Diagnóstico concluído.
Nem precisa de médico, viu.
“Gastar com convênio? Pra quê? Tenho só 45 anos.”
O mais irônico é que esse mesmo sujeito consegue passar três horas lendo fóruns, vendo vídeos no YouTube sobre barbear clássico, reviews de lâminas, barbeadores, pincéis, sabões e qualquer outra coisa que tenha a ver com o que ele gosta.
Consegue comparar cinco barbeadores que fazem exatamente a mesma coisa.
Consegue descobrir que uma lâmina fabricada em determinado país é 0,2% mais afiada.
Consegue discutir se um pincel sintético tem mais backbone.
Consegue saber todos os códigos da Gillette desde a Segunda Guerra Mundial de cor...
Mas não consegue lembrar o próprio tipo sanguíneo.
E não consegue passar três minutos tentando marcar uma consulta no app do convênio.
Porque aí já envolve saúde.
E saúde, aparentemente, é assunto para depois, muito depois...
“Sou jovem, cara. Minha mãe sempre dizia que eu tinha a saúde de um cavalo.”
“Além disso, tô ocupado lendo o tópico Barbear do Dia.”
O homem pode investigar durante uma semana qual after comprar.
Mas, diante de uma dor que está incomodando há meses, prefere confiar na própria teoria de que, se você ignorar, ela some.
E a teoria quase sempre é alguma variação de:
“Não deve ser nada.”
“Preciso dar uma maneirada no bacon.”
“No próximo jogo, vou ficar no gol.”
Talvez seja por isso que os homens vivam menos.
Não porque não saibam cuidar das coisas.
Pelo contrário.
Nós cuidamos muito bem delas... pelo menos das que mais gostamos.
O corpo ficou para depois.
Como quase tudo.
Abs,
Igor
A ciência já encontrou várias explicações. Genética, comportamento, acidentes, doenças cardiovasculares, alimentação, estresse, hábitos de vida, tentativa frenética de se divertir com tudo?
Eu tenho outra teoria.
O problema começa quando o homem descobre que quase tudo pode esperar.
Não é exatamente negligência. É uma habilidade. Homem é especialista em postergar problema.
A torneira começa a pingar.
“Depois eu vejo.”
O botão do controle remoto precisa apertar três vezes.
“É a pilha.”
O tênis começa a abrir na lateral.
“Dá para usar mais um pouco.”
O carro acende uma luz no painel.
“Essa aí sempre acende.”
Não é que ele ignore o problema. Ele simplesmente estabelece prioridades.
E, quando o assunto é o próprio corpo, o método continua funcionando perfeitamente.
Acorda com uma dor estranha.
“Deve ser jeito que eu dormi.”
Dura três dias.
“Deve ser postura.”
Dura duas semanas.
“Deve ser coluna.”
Depois começa a incomodar o braço.
“É porque estou trabalhando muito.”
E assim o sujeito vai acumulando pequenos avisos, até que um dia, incapacitado para sair de rolezinho com os brothers, decide finalmente procurar ajuda.
O médico pergunta:
“Há quanto tempo você está sentindo isso?”
O homem faz uma pequena pausa.
“Uns oito meses.”
“E por que não veio antes?”
O homem olha para ele com a serenidade de quem realmente não entende a pergunta.
“Porque não estava tão ruim.”
Talvez esteja aí uma das razões.
Homem não costuma medir o perigo pelo que está acontecendo. Mede pelo quanto aquilo está atrapalhando.
Se consegue andar, está tudo bem.
Se consegue trabalhar, está tudo bem.
Se consegue ir no churras, está tudo bem.
Se consegue levantar da cadeira sem gemer, está excelente.
O curioso é que o homem sabe fazer manutenção preventiva.
Troca óleo. Calibra pneu. Faz backup. Atualiza celular.
Pesquisa durante três horas antes de comprar qualquer equipamento.
Pode desmontar um barbeador de 60 anos, limpar cada peça, estudar o código de fabricação e discutir durante três horas se determinado cabo é original.
Mas, se sentir alguma coisa estranha no próprio corpo, toda essa capacidade investigativa desaparece.
A análise científica termina assim:
“Vou abrir o Google.”
Três minutos depois:
“É gases.”
Enquanto assiste ao jogo, pensa:
“Não devia ter repetido aquela feijoada três vezes.”
E pronto.
Diagnóstico concluído.
Nem precisa de médico, viu.
“Gastar com convênio? Pra quê? Tenho só 45 anos.”
O mais irônico é que esse mesmo sujeito consegue passar três horas lendo fóruns, vendo vídeos no YouTube sobre barbear clássico, reviews de lâminas, barbeadores, pincéis, sabões e qualquer outra coisa que tenha a ver com o que ele gosta.
Consegue comparar cinco barbeadores que fazem exatamente a mesma coisa.
Consegue descobrir que uma lâmina fabricada em determinado país é 0,2% mais afiada.
Consegue discutir se um pincel sintético tem mais backbone.
Consegue saber todos os códigos da Gillette desde a Segunda Guerra Mundial de cor...
Mas não consegue lembrar o próprio tipo sanguíneo.
E não consegue passar três minutos tentando marcar uma consulta no app do convênio.
Porque aí já envolve saúde.
E saúde, aparentemente, é assunto para depois, muito depois...
“Sou jovem, cara. Minha mãe sempre dizia que eu tinha a saúde de um cavalo.”
“Além disso, tô ocupado lendo o tópico Barbear do Dia.”
O homem pode investigar durante uma semana qual after comprar.
Mas, diante de uma dor que está incomodando há meses, prefere confiar na própria teoria de que, se você ignorar, ela some.
E a teoria quase sempre é alguma variação de:
“Não deve ser nada.”
“Preciso dar uma maneirada no bacon.”
“No próximo jogo, vou ficar no gol.”
Talvez seja por isso que os homens vivam menos.
Não porque não saibam cuidar das coisas.
Pelo contrário.
Nós cuidamos muito bem delas... pelo menos das que mais gostamos.
O corpo ficou para depois.
Como quase tudo.
Abs,
Igor
