Minha trajetória no Barbear Clássico

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Em outro tópico, o grande amigo Igor (MaximusBrow) me desafiou a contar um resumo da minha trajetória no barbear clássico.

Portanto, desafio aceito, confrades!

Para contar como cheguei até aqui, precisei resgatar alguns arquivos antigos e fotos arquivadas. O registro exato do meu primeiro barbear clássico data de 18 de agosto de 2013 (pouco mais de 13 anos atrás).

O início de tudo

Eu sempre tive uma postura bastante questionadora diante das coisas cotidianas. Na época, aos 21 anos, eu trabalhava como produtor e editor de vídeo para um canal no YouTube. Em certa ocasião, fui escalado para cobrir um evento e, durante os preparativos, fui fazer a barba com os velhos multilâminas descartáveis de costume. O resultado foi desastroso: cortes no pescoço, vermelhidão generalizada e uma sequência dolorosa de pelos encravados. Minha pele sempre foi extremamente sensível, e o ato de barbear era um suplício que eu adiava o quanto podia.

Meu pai já havia abandonado as lâminas há anos e usava aquele barbeador elétrico tradicional da Philips com três discos giratórios. Para mim, o cenário parecia um beco sem saída: ou eu enfrentava a agressão do plástico descartável, ou apelava para aparelhos elétricos que até resolviam pela metade, mas deixavam o rosto com aspecto e toque de lixa d'água.

Como descobri o barbear clássico?

Naquele mesmo ano, passei a acompanhar com frequência o blog Art of Manliness. Num dia de pura frustração com o estado da minha pele, entrei na seção de Grooming e dei de cara com um artigo que mudaria tudo: um guia completo ensinando a se barbear com uma navalha tradicional de lâmina fixa. Busquei em meus favoritos e descobri que o post ainda existe: https://www.artofmanliness.com/style/gro...zor-shave/.

Este artigo causou uma verdadeira expansão na minha cabeça. Comecei a me perguntar: quanto conhecimento prático e secular nós simplesmente jogamos fora em troca de conveniência barata? Será que as dores que eu sentia no rosto já não haviam sido resolvidas com perfeição décadas atrás? Aos 21 anos, fui tomado por uma nostalgia autêntica de um tempo que não vivi. Ficou claro para mim que antigo não significava obsoleto.

Decidi que queria usar navalhas. Porém, ao pesquisar os preços, esbarrei na barreira financeira da época. A alternativa viável foi começar pelos navalhetes de lâmina partida. Em julho de 2013, importei pela Amazon o meu primeiro equipamento: um Dovo Shavette.

[Imagem: Primeiro-setup.png]

Completando com um creme Nívea, lâminas Gillette Azul Aço Inox e um pincel sintético de qualidade duvidosa, fiz minha estreia. Apesar da inexperiência total com a empunhadura do navalhete, o barbear foi surpreendentemente decente. Tive pequenos arranhões por pura falta de destreza motora, mas a partir daquele fatídico 18 de agosto de 2013 eu nunca mais soube o que era sofrer com pelos encravados.

A descoberta do fórum

Com o tempo, o alívio na pele deu lugar ao encanto pelo ritual. Em 2015 descobri o fórum antigo do BTB através de um convite do Gago no fórum vizinho por meio de uma mensagem direta. No mesmo dia me registrei com este mesmo codinome: Haok. 

Pouco tempo depois comprei meu segundo navalhete, um modelo de edição limitada da Antiga Barbearia de Bairro. Nessa época vieram os primeiros cremes da Proraso e meu primeiro pincel de verdade: um Omega 11137 de cerdas de javali, indicação direta do amigo Ulysses (udrako), que conheci nas discussões da comunidade.

[Imagem: Proraso-e-Pincel-Omega.png]

Desbravando as terras do Tio Sam

Naquele mesmo ano viajei a trabalho para os Estados Unidos, e a viagem virou uma verdadeira expedição de caça a equipamentos. Voltei com mais cremes Proraso, loções Lucky Tiger e Aqua Velva, uma Merkur Futur, uma scuttle de cerâmica da Georgetown Pottery e, para o espanto de quem viu minha mala, um autêntico barber pole. Instalei o dito cujo no meu quarto e montei ali o meu refúgio pessoal.

[Imagem: Barber-Pole.png]

Dessa viagem guardo uma memória afetiva que define o espírito deste hobby. O Ulysses me perguntou se eu poderia trazer uma clássica mug da Old Spice que ele estava de olho no eBay, pois a peça trazia lembranças fortes do pai dele. O combinado era enviar para a casa onde eu estava hospedado e eu depois enviaria para ele quando retornasse ao Brasil. Quando a encomenda chegou e abri a caixa, havia duas canecas idênticas. Mandei mensagem avisando que o vendedor americano devia ter se enganado, e o Ulysses me respondeu: "Uma é para mim e a outra é para você, fica de recordação da nossa amizade!".

[Imagem: Mug-Old-Spice.jpg]

Esta mug tornou-se uma das peças mais valiosas da minha coleção. Ela representa o elo intangível da transmissão de valores de pai para filho. Como meu pai nunca teve o hábito do barbear clássico para me ensinar, senti que aquele presente simbolizava a minha adoção nesta irmandade.

A primeira navalha

Ainda em 2015 dei o salto definitivo para as lâminas fixas adquirindo uma Thiers-Issard Evidé Sonnant Extra 6/8. Junto com ela, comprei uma pedra combinada Coticule belga (da finada loja Monad), alguns strops de couro e mergulhei a fundo na arte da afiação e polimento de fio.

[Imagem: Thiers-Issard-Evide-Sonnant-Extra-6-8.png]

Nesse mesmo período de intensa experimentação, comecei a explorar peças com alma própria: adquiri uma clássica Gillette Tech Ball End, arrematei uma navalha custom de aço damasco num leilão às cegas no Reino Unido, comprei uma mini navalha feita por um cuteleiro gaúcho através de um confrade do antigo fórum e até me aventurei a produzir meu próprio cabo de pincel em madeira, encomendando um nó de pelo de texugo da Frank Shaving para a montagem manual. Estas reunidas eram minhas máquinas nessa fase:

[Imagem: Colec-a-o-em-2016.png]

E este é o pincel artesanal que mencionei anteriormente:

[Imagem: Pincel-Custom.jpg]

O declínio

No fim de 2015, no entanto, a vida real cobrou o seu preço. O término traumático de um noivado longo me jogou numa depressão profunda. Me afastei de quase tudo, silenciei nas redes e me distanciei das postagens do fórum.

Os anos seguintes foram turbulentos. Em 2017, fundei um restaurante com meus pais aqui na cidade. Entre o calor das grelhas, a gestão de equipe e o fechamento do caixa, assumi a operação integral do negócio por vários anos em ritmo implacável. Em 2018 concluí minha graduação em Administração, mas me sentia desconectado de propósito. Foram anos de dedicação extrema, sem finais de semana livres e sem tempo mental para desfrutar das coisas que me traziam serenidade.

A vida se ajeitando

Em 2021 me casei, e logo após o matrimônio decidi que era hora de virar a página. Alinhei a transição de carreira com a minha família, deixei a operação do restaurante e iniciei minha guinada para a área de tecnologia, onde atuo hoje como Engenheiro de Software.

Durante toda essa fase de grandes mudanças, eu nunca deixei de usar meu equipamento tradicional na pia do banheiro. Mas o consumo desenfreado cessou. Entendi que o frenesi de compras muitas vezes é apenas uma busca vazia por picos rápidos de dopamina. O tempo me trouxe maturidade: hoje sei que cada peça da minha bancada precisa carregar sentido, história e função real. Isso não quer dizer que eu não tenha uma wishlist, mas hoje ela está bem mais curada do que um dia já foi.

Dos tempos recentes para cá

Para não dizer que não entrou nada recente na gaveta, em 2024 minha esposa me presenteou de surpresa com o aparelho de barbear King C. Gillette (aquele lançado inspirado no modelo clássico de 1901). Ela sabia do carinho que eu guardava por esse hobby adormecido e resolveu me fazer esse agrado. Sei que a máquina divide opiniões entre os veteranos, mas a carga de afeto que veio com ela a coloca em lugar nobre na minha rotação.

Essa é a jornada que me trouxe até aqui. O reencontro recente com este espaço e a conversa inspiradora com um barbeiro tradicional aqui da minha cidade reacenderam a chama da bancada, história que compartilhei no meu relato anterior e que pode ser lido aqui.

É uma honra estar de volta à convivência dos senhores.
Muito bacana seu depoimento, Haok! Obrigado por compartilhar essa história com tanto detalhe e pelas fotos. Deve ter sido bem divertido pra galera que entrou no hobby com o dólar bem mais baixo poder importar muita coisa de qualidade lá de fora.
1 curtida(s) para esse Post:
  • Haok
()GMMCM Escreveu: Muito bacana seu depoimento, Haok! Obrigado por compartilhar essa história com tanto detalhe e pelas fotos. Deve ter sido bem divertido pra galera que entrou no hobby com o dólar bem mais baixo poder importar muita coisa de qualidade lá de fora.

Verdade! Nessa época eu era cliente assíduo da West Coast Shaving, fora as compras na Amazon e os garimpos no eBay. Dava para arriscar e trazer novidades com muito mais tranquilidade.

A barreira do câmbio hoje realmente torna a importação mais pesada, mas por outro lado isso me despertou uma veia curiosa: e se eu mesmo formular um pós-barba? E se eu me aventurar a produzir meu próprio sabão artesanal?

Confesso que no momento estou com uma dúzia de abas abertas no navegador estudando tabelas de óleos, hidróxido de potássio, hidróxido de sódio e processos de saponificação a quente. Se bobear, a próxima novidade na minha bancada vai sair direto da panela!
3 curtida(s) para esse Post:
  • GMMCM, Joao Americo, Maximus Brow
Grande Haok,

Ufa! Que relato incrível, meu amigo. E acho que o mais legal é que você conseguiu fazer algo que vai muito além de contar como começou a usar navalha, navalhete, pincéis e máquinas. Você contou a história de uma relação com o hobby e, principalmente, com as pessoas que fizeram parte dela.

A parte da mug da Old Spice, por exemplo, resume muito do que é esse nosso hobby. No fim das contas, aquela caneca não vale pelo objeto em si. Ela vale pela história, pela amizade com o Ulysses e pelo significado que aquele gesto acabou carregando. É justamente esse tipo de coisa que faz determinadas peças permanecerem na coleção mesmo quando tantas outras entram e saem.

Também achei muito interessante perceber a transformação ao longo desses 13 anos. Você começou buscando uma solução para um problema real com a pele, descobriu o mundo do barbear clássico, mergulhou de cabeça, experimentou de tudo, passou por uma fase de afastamento e, anos depois, voltou com uma visão muito mais madura sobre o hobby.

Eu também comecei no hobby com navalhete, mas confesso que nunca quis me arriscar de verdade com uma lâmina fixa. Acho que não tenho coordenação para isso. Só de pensar em passar uma lâmina dessas pelo rosto já fico imaginando a pia parecendo cenário de filme de terror.

E justamente por isso acho muito interessante essa parte da sua trajetória com a navalha. A curva de aprendizado de uma lâmina fixa é longa. Não é simplesmente pegar a navalha e sair fazendo a barba. Tem ângulo, pressão, preparação, afiação, manutenção e, principalmente, aprender a controlar a mão.

Mas, para mim, existe um ponto que representa o verdadeiro ápice do barbear tradicional: quando você consegue fazer uma barba completa com uma navalha de lâmina fixa e termina com um barbear realmente agradável, sem cortes e sem transformar o banheiro em centro cirúrgico. Acho que chegar nesse nível é o auge do barbear clássico.

Essa parte sobre o consumo também me chamou bastante atenção. Acho que muitos de nós já passamos por aquela fase em que a vontade de comprar uma peça nova começa a se confundir com a própria diversão do hobby. Com o tempo, algumas coisas deixam de ser simplesmente "mais uma máquina" e passam a ter história, significado e motivo para estar ali.

Obrigado por aceitar o desafio e, principalmente, por ter resgatado tudo isso para compartilhar conosco. As fotos antigas, as primeiras compras, as mudanças de fase e até os períodos mais difíceis deixaram o relato muito mais humano.

É muito bom ter você de volta por aqui, Haok. E agora fiquei particularmente curioso para saber se essa história da panela vai realmente virar o próximo capítulo da sua bancada. Se sair sabão artesanal daí, já temos material para outro relato.

Grande abraço, meu amigo.

obs, senhores do BTB, se este postnão merece uma curtida, não sei mais o que merece.

agora sim,

abs.
3 curtida(s) para esse Post:
  • Haok, Joao Americo, thony
Muito obrigado pelas palavras, Igor!

O mérito é todo seu por ter lançado o desafio. Foi um exercício extremamente prazeroso de fazer, uma verdadeira viagem no tempo. Abrir as pastas antigas, reencontrar fotos que estavam esquecidas há anos e resgatar a história de como cada peça foi parar na minha bancada me deixou genuinamente feliz. No fim das contas, uma parte essencial do que fazemos aqui é exatamente isso: a preservação da história, das memórias e das amizades que criamos ao longo do caminho.

Sobre a lâmina fixa, mesmo já tendo feito ótimas barbas tanto com navalhetes quanto com navalhas, considero que estou em constante evolução e aprendizado. É um terreno onde nunca dá para dizer que dominamos tudo por completo. Confesso que nos últimos tempos fiquei muito concentrado nas safety razors pela praticidade do dia a dia, mas pretendo retomar a prática da afiação e o uso das navalhas com calma.

Inclusive, já está no radar encomendar um strop novo em breve, já que o meu antigo acabou virando puro mofo depois de tantos anos esquecido no fundo do armário. O grande ponto da navalha fixa é a demanda por tempo livre, seja para assentar e afiar com a dedicação necessária ou para fazer a barba sem nenhuma pressa. É algo que pretendo organizar melhor na minha rotina para voltar a desfrutar como se deve.

Quanto à aventura no mundo dos sabões, pretendo estudar o assunto com muita calma. O mais legal é que até minha esposa se animou com a ideia, já que ela já vinha flertando com a criação de velas aromáticas e sabonetes artesanais. Vamos ver se consigo essa liga e transformo a bancada em laboratório a quatro mãos!

Pode ter certeza de que vou documentar cada passo, os acertos e os inevitáveis desastres químicos dos primeiros ensaios para compartilhar aqui com a confraria.

Um forte abraço, meu amigo!



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