Velocidade no barbear: pressa, prática ou falta de juízo?
Tem uma coisa que sempre me chamou a atenção no barbear tradicional.
Você entra no YouTube e vê aquele cidadão fazendo a barba inteira com uma safety razor em cinco minutos.
Cinco minutos.
O sujeito prepara a espuma, faz a barba, passa água no rosto, provavelmente ainda dá tempo de lavar o pincel e guardar tudo.
Enquanto isso, eu levo cinco minutos só para raspar o bigode.
E olhe lá.
A primeira reação é pensar:
"Esse cara deve ter algum segredo."
Não tem.
Ele provavelmente tem técnica, prática e, principalmente, conhece o próprio rosto.
E aqui entra uma coisa que muita gente esquece quando começa no barbear tradicional: esses caras que fazem a barba rapidamente têm muito mais tempo de voo do que você, jovem gafanhoto.
É quase aquela velha cena:
"Põe o casaco."
"Tá."
"Tira o casaco."
"Tá."
"Põe de novo."
É quase isso.
O sujeito já fez aquilo tantas vezes que praticamente não precisa mais pensar no que está fazendo.
A mão sabe onde passar. O ângulo já está na memória. Ele sabe onde pode apertar um pouco mais, onde precisa aliviar, onde o pelo cresce em determinada direção e onde aquele pedaço do rosto resolveu desafiar as leis da física.
Por isso, para quem está começando, eu sempre recomendo uma coisa simples: faça um lado do rosto de cada vez.
Eu sei.
É tentador fazer aquela espuma que mais parece uma cobertura de chantilly.
Você levou 15 minutos para chegar naquele ponto ideal.
A espuma está linda.
Densa.
Brilhante.
Perfeita.
Dá vontade de fotografar.
Você olha para aquilo e pensa:
"Isso vai render um belo post no Barbear do Dia."
Ou uma foto no Instagram com a legenda:
"Tá quase pago."
Mas aí vem a pergunta:
O que adianta você gastar 15 minutos fazendo uma espuma que parece uma nuvem feita para um anjo preguiçoso dormir e, quando pega o barbeador na mão, aquilo virar uma gincana do Domingo Legal?
Na sua cabeça aparece um cronômetro.
E ele não é um cronômetro normal.
Ele grita.
"VAMOS!"
"VOCÊ TEM TRÊS MINUTOS!"
"TRÊS MINUTOS!"
"VALENDO!"
Aí você empunha o aparelho contra a pele como se estivesse disputando uma final olímpica.
Passa a lâmina mais rápido.
Erra o ângulo.
Volta.
Passa de novo.
Muda a direção.
Tenta compensar.
E, nesse momento, você já está convencido de que, se não terminar a barba em três minutos, sua vida vai acabar.
A bolsa de valores vai despencar.
Vai estourar uma guerra nuclear.
Uma frota alienígena vai invadir a Terra.
Alguém vai bater na porta do seu banheiro com uma crise de diarreia.
Calma.
Calma.
O barbear tradicional, acima de tudo, deve ser prazeroso.
Não é uma prova de velocidade.
Eu também já fui assim.
Quando comecei, queria fazer tudo rápido.
Na verdade, queria fazer tudo em três minutos.
Se desse para colocar um miojo para cozinhar e, enquanto a água fervia, aproveitar para fazer a barba e ganhar tempo, melhor ainda.
Velocidade e lâmina só são uma boa combinação se você for um samurai do século 16.
E existe outro problema: a gente quer velocidade antes de ter habilidade.
Só que não funciona assim.
Como quase tudo na vida, repetição é a fórmula para ganhar agilidade e eficiência.
Primeiro você aprende.
Depois você repete.
Depois começa a fazer sem precisar pensar em cada movimento.
E, finalmente, percebe que aquela barba que antes parecia uma operação militar começou a ficar simples.
Não porque você passou a correr.
Mas porque passou a conhecer o caminho.
Lembro uma vez que estava vendo uma luta de MMA do Anderson Silva contra um gringo. Ele venceu o cara em coisa de dois minutos, com velocidade, força e agressividade.
Meu amigo que estava em casa olhou aquilo e disse:
"Cara, isso aí é simples."
E começou a dar uma série de formas de como se deveria vencer um cara faixa-preta em pelo menos três artes marciais.
Complicado, né?
O Anderson fazia aquilo praticamente a vida toda.
Treinava de 5 a 8 horas por dia.
Percebem a relação?
Você começa a conhecer seu rosto.
Descobre onde o pelo cresce para cima, para baixo, para o lado e, aparentemente, em uma dimensão paralela.
Descobre quais regiões precisam de mais cuidado.
Aprende quanto pode pressionar.
Aprende a ouvir e sentir a lâmina.
E, principalmente, percebe que não precisa disputar uma corrida com ninguém.
Eu moro com minha esposa e duas filhas em um apartamento de 65 metros quadrados, com um único banheiro.
Então existe uma variável que aqueles vídeos de cinco minutos provavelmente não mostram:
a vida real.
Se eu quiser fazer a barba com tranquilidade, sem ouvir alguém bater na porta do banheiro a cada cinco minutos, preciso escolher muito bem o horário.
Fazer a barba depois das 23 horas?
Nem pensar.
Fazer a barba cansado, usando uma BIC em um R41 às 11 da noite?
Por isso, quando quero realmente curtir o processo, gosto de fazer a barba às 7 da manhã de domingo.
Casa silenciosa.
Ninguém esmurrando a porta.
Sem pressa.
Sem cronômetro imaginário.
Apenas eu, o barbeador, o sabão, a lâmina e alguns minutos de paz.
E o resultado costuma ser muito melhor.
Então, se você está começando no barbear tradicional, não se preocupe em fazer a barba rapidamente.
Faça um lado do rosto, observe o que aconteceu, e vá repetindo. Com o tempo, você vai conhecendo seu rosto, entendendo o pelo e descobrindo o que funciona melhor para você.
E teste lâminas.
Muitas lâminas.
A lâmina, aliás, é provavelmente uma das partes mais baratas de todo esse hobby e é justamente uma das que mais vale a pena experimentar.
Você vai encontrar uma que combina melhor com sua pele, seu pelo, seu barbeador e sua maneira de se barbear.
E, com o tempo, aquela velocidade que você tanto queria simplesmente aparece.
Sem cronômetro.
Sem "valendo".
E, principalmente, sem essa necessidade de transformar o próprio banheiro em uma pista de Fórmula 1.
Porque, afinal de contas, por que diabos você está achando que está competindo com alguém?
O sujeito fez a barba em cinco minutos?
Ótimo para ele.
Você levou dez?
E daí?
A barba é sua.
O rosto é seu.
A lâmina é sua.
E ninguém está entregando medalha para quem terminar primeiro.
No barbear tradicional, velocidade é consequência, não objetivo.
Primeiro você aprende a fazer direito. Depois aprende a fazer bem. E, quando percebe, está fazendo rápido.
Não porque alguém gritou "valendo!", mas porque você simplesmente aprendeu.
E isso, meu caro jovem gafanhoto, só vem com tempo de voo.
abs.
Tem uma coisa que sempre me chamou a atenção no barbear tradicional.
Você entra no YouTube e vê aquele cidadão fazendo a barba inteira com uma safety razor em cinco minutos.
Cinco minutos.
O sujeito prepara a espuma, faz a barba, passa água no rosto, provavelmente ainda dá tempo de lavar o pincel e guardar tudo.
Enquanto isso, eu levo cinco minutos só para raspar o bigode.
E olhe lá.
A primeira reação é pensar:
"Esse cara deve ter algum segredo."
Não tem.
Ele provavelmente tem técnica, prática e, principalmente, conhece o próprio rosto.
E aqui entra uma coisa que muita gente esquece quando começa no barbear tradicional: esses caras que fazem a barba rapidamente têm muito mais tempo de voo do que você, jovem gafanhoto.
É quase aquela velha cena:
"Põe o casaco."
"Tá."
"Tira o casaco."
"Tá."
"Põe de novo."
É quase isso.
O sujeito já fez aquilo tantas vezes que praticamente não precisa mais pensar no que está fazendo.
A mão sabe onde passar. O ângulo já está na memória. Ele sabe onde pode apertar um pouco mais, onde precisa aliviar, onde o pelo cresce em determinada direção e onde aquele pedaço do rosto resolveu desafiar as leis da física.
Por isso, para quem está começando, eu sempre recomendo uma coisa simples: faça um lado do rosto de cada vez.
Eu sei.
É tentador fazer aquela espuma que mais parece uma cobertura de chantilly.
Você levou 15 minutos para chegar naquele ponto ideal.
A espuma está linda.
Densa.
Brilhante.
Perfeita.
Dá vontade de fotografar.
Você olha para aquilo e pensa:
"Isso vai render um belo post no Barbear do Dia."
Ou uma foto no Instagram com a legenda:
"Tá quase pago."
Mas aí vem a pergunta:
O que adianta você gastar 15 minutos fazendo uma espuma que parece uma nuvem feita para um anjo preguiçoso dormir e, quando pega o barbeador na mão, aquilo virar uma gincana do Domingo Legal?
Na sua cabeça aparece um cronômetro.
E ele não é um cronômetro normal.
Ele grita.
"VAMOS!"
"VOCÊ TEM TRÊS MINUTOS!"
"TRÊS MINUTOS!"
"VALENDO!"
Aí você empunha o aparelho contra a pele como se estivesse disputando uma final olímpica.
Passa a lâmina mais rápido.
Erra o ângulo.
Volta.
Passa de novo.
Muda a direção.
Tenta compensar.
E, nesse momento, você já está convencido de que, se não terminar a barba em três minutos, sua vida vai acabar.
A bolsa de valores vai despencar.
Vai estourar uma guerra nuclear.
Uma frota alienígena vai invadir a Terra.
Alguém vai bater na porta do seu banheiro com uma crise de diarreia.
Calma.
Calma.
O barbear tradicional, acima de tudo, deve ser prazeroso.
Não é uma prova de velocidade.
Eu também já fui assim.
Quando comecei, queria fazer tudo rápido.
Na verdade, queria fazer tudo em três minutos.
Se desse para colocar um miojo para cozinhar e, enquanto a água fervia, aproveitar para fazer a barba e ganhar tempo, melhor ainda.
Velocidade e lâmina só são uma boa combinação se você for um samurai do século 16.
E existe outro problema: a gente quer velocidade antes de ter habilidade.
Só que não funciona assim.
Como quase tudo na vida, repetição é a fórmula para ganhar agilidade e eficiência.
Primeiro você aprende.
Depois você repete.
Depois começa a fazer sem precisar pensar em cada movimento.
E, finalmente, percebe que aquela barba que antes parecia uma operação militar começou a ficar simples.
Não porque você passou a correr.
Mas porque passou a conhecer o caminho.
Lembro uma vez que estava vendo uma luta de MMA do Anderson Silva contra um gringo. Ele venceu o cara em coisa de dois minutos, com velocidade, força e agressividade.
Meu amigo que estava em casa olhou aquilo e disse:
"Cara, isso aí é simples."
E começou a dar uma série de formas de como se deveria vencer um cara faixa-preta em pelo menos três artes marciais.
Complicado, né?
O Anderson fazia aquilo praticamente a vida toda.
Treinava de 5 a 8 horas por dia.
Percebem a relação?
Você começa a conhecer seu rosto.
Descobre onde o pelo cresce para cima, para baixo, para o lado e, aparentemente, em uma dimensão paralela.
Descobre quais regiões precisam de mais cuidado.
Aprende quanto pode pressionar.
Aprende a ouvir e sentir a lâmina.
E, principalmente, percebe que não precisa disputar uma corrida com ninguém.
Eu moro com minha esposa e duas filhas em um apartamento de 65 metros quadrados, com um único banheiro.
Então existe uma variável que aqueles vídeos de cinco minutos provavelmente não mostram:
a vida real.
Se eu quiser fazer a barba com tranquilidade, sem ouvir alguém bater na porta do banheiro a cada cinco minutos, preciso escolher muito bem o horário.
Fazer a barba depois das 23 horas?
Nem pensar.
Fazer a barba cansado, usando uma BIC em um R41 às 11 da noite?
Por isso, quando quero realmente curtir o processo, gosto de fazer a barba às 7 da manhã de domingo.
Casa silenciosa.
Ninguém esmurrando a porta.
Sem pressa.
Sem cronômetro imaginário.
Apenas eu, o barbeador, o sabão, a lâmina e alguns minutos de paz.
E o resultado costuma ser muito melhor.
Então, se você está começando no barbear tradicional, não se preocupe em fazer a barba rapidamente.
Faça um lado do rosto, observe o que aconteceu, e vá repetindo. Com o tempo, você vai conhecendo seu rosto, entendendo o pelo e descobrindo o que funciona melhor para você.
E teste lâminas.
Muitas lâminas.
A lâmina, aliás, é provavelmente uma das partes mais baratas de todo esse hobby e é justamente uma das que mais vale a pena experimentar.
Você vai encontrar uma que combina melhor com sua pele, seu pelo, seu barbeador e sua maneira de se barbear.
E, com o tempo, aquela velocidade que você tanto queria simplesmente aparece.
Sem cronômetro.
Sem "valendo".
E, principalmente, sem essa necessidade de transformar o próprio banheiro em uma pista de Fórmula 1.
Porque, afinal de contas, por que diabos você está achando que está competindo com alguém?
O sujeito fez a barba em cinco minutos?
Ótimo para ele.
Você levou dez?
E daí?
A barba é sua.
O rosto é seu.
A lâmina é sua.
E ninguém está entregando medalha para quem terminar primeiro.
No barbear tradicional, velocidade é consequência, não objetivo.
Primeiro você aprende a fazer direito. Depois aprende a fazer bem. E, quando percebe, está fazendo rápido.
Não porque alguém gritou "valendo!", mas porque você simplesmente aprendeu.
E isso, meu caro jovem gafanhoto, só vem com tempo de voo.
abs.
