Pergunta aos amigos do BTB.

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(06-10-2026)Maximus Brow Escreveu: Prezado Haok,

Me diga, qual é a sua opinião sobre o King C. Gillette? Estou falando do aparelho, evidentemente, e não do fundador da companhia.

Eu tenho muitas críticas e ressalvas em relação a esse barbeador e, principalmente, ao nome que foi colocado nele. Se a Gillette tivesse realmente fabricado um open comb e decidido colocar o nome do fundador na máquina, seria muito mais justo e, historicamente, muito mais coerente.

Mas, como não vivemos em um mundo justo, o barbeador escolhido para levar o nome do Sr. Gillette é justamente um aparelho que, na minha opinião, deixa bastante a desejar.

Por outro lado, se analisarmos a questão pelo prisma comercial, a chance de a Gillette fabricar, em pleno 2026, um barbeador minimamente eficiente, ou melhor ainda, um open comb, parece ser praticamente a mesma de eu passar as próximas férias no lado escuro da Lua. Ou seja: zero.

Mas vamos deixar minhas angústias de lado. O que você tem a dizer sobre o KCG, considerando que é um assíduo e entusiasmado usuário de navalhas fixas?

ABS.

Caro Igor,

Este safety razor da linha King C. Gillette carrega um valor sentimental indiscutível para mim, já que foi um presente carinhoso da minha esposa em uma época de vida bastante atribulada. Sentimentos à parte, concordo com muitas das suas inquietações e tenho algumas ponderações bem pragmáticas sobre a peça.

Em primeiro lugar, há a questão do custo-benefício e da acessibilidade imediata: aqui no mercado perto de casa ele costuma figurar na faixa dos R$ 120. Pela usinagem e acabamento cromado apresentados, é um valor justo para quem quer entrar no hobby sem ter de recorrer à importação ou esperar semanas pelos Correios.

Outro ponto positivo é a massa do conjunto. Ele tem um peso substancial no cabo, o que considero excelente para iniciantes. A gravidade faz o trabalho por si só, educando a mão a não colocar aquela pressão vertical excessiva que tanta gente traz do vício dos multilâminas plásticos descartáveis.

Agora, concordo plenamente com você no aspecto histórico: batizar uma máquina com o nome de batismo do King Camp Gillette e entregá-la com um cabeçote fechado tradicional é uma incoerência flagrante com as origens da marca. Dá a nítida impressão de que a equipe de marketing e desenvolvimento de produto da P&G sequer abriu os arquivos de patentes do início do século XX.

Entendo, contudo, o pragmatismo corporativo por trás dessa escolha covarde. O público-alvo dessa linha não somos nós. O alvo é o homem comum de supermercado que compra por curiosidade estética. Um open comb nas mãos de quem acabou de largar um Mach3 resultaria em banhos de sangue, irritações severas e devoluções em massa. Acho que a decisão do closed comb e a exposição conservadora de lâmina deixam a margem de erro muito mais complacente.

Com isso em mente, é óbvio que o King C. Gillette passa longe de ser o meu aparelho preferido na bancada. Uma Merkur Futur entrega uma eficiência de corte, peso dinâmico e flexibilidade infinitamente superiores, mas estamos falando de um patamar que hoje beira os R$ 800 via importação. Para a prateleira da farmácia da esquina, os R$ 120 do KCG cumprem tabela.

O que realmente beira o absurdo é o ecossistema que empurraram junto com a máquina. As lâminas da linha que vêm naquela caixinha azul com detalhes em cobre são de fabricação nacional, mas custam cerca de R$ 24 a cartela dupla com 10 unidades, saindo a R$ 2,40 por lâmina. Cobrar esse valor numa lâmina produzida aqui dentro é um contrassenso absoluto quando em qualquer loja de cosméticos do centro da cidade você encontra caixas de lâminas Lord ou Wilkinson Sword nacionais por menos de R$ 2,00 a caixinha.

Quanto aos cosméticos que acompanham a linha, o aroma é excessivamente genérico e sintético. Perderam uma chance de ouro de recorrer à nostalgia, formulando algo com perfil clássico de barbearia antiga ou notas frescas e mentoladas que remetessem aos clássicos do passado (o bom e velho creme Palmindaya, por exemplo, custa uma fração disso e me transporta instantaneamente para a memória do meu avô).

No fim das contas, a ironia dessa jogada é quase poética. Na administração de empresas existe o consagrado "Modelo Lâmina e Aparelho" (Razor and Blades Business Model), batizado exatamente por causa do velho King Camp Gillette no século passado: você vende o suporte a preço de custo ou com margem mínima para lucrar indefinidamente vendendo as lâminas proprietárias. No caso do KCG moderno, eles tentaram empurrar o mesmo modelo de retenção em um sistema universal e aberto, achando que o consumidor pagaria R$ 2,40 numa lâmina double edge só pela estampa da caixa.

O aparelho é honesto para abrir a porta de entrada de novos confrades, mas está a anos-luz de representar um retorno real e apaixonado da Gillette às suas raízes históricas.
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  • GMMCM, Joao Americo

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RE: Pergunta aos amigos do BTB. - por Haok - 06-10-2026



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