(07-10-2026)Maximus Brow Escreveu: Prezados Haok e João Americo,
Eu tenho uma leitura um tanto diferente sobre o tema P&G, especialmente em relação aos lançamentos de safety razors.
Como a gigante Gillette tem os cartuchos como seu principal produto, não me parece muito inteligente, do ponto de vista comercial e econômico, lançar um barbeador de metal, durável, acompanhado de lâminas que custam centavos.
Mesmo que as lâminas DE da própria Gillette sejam mais caras, existe hoje uma infinidade de marcas fabricando bons produtos a preços bastante acessíveis.
O meu raciocínio, portanto, é o seguinte, a Gillette jamais fabricaria um produto realmente bom se o mesmo tivesse potencial para canibalizar seus próprios cartuchos.
Se o consumidor está disposto a pagar, por exemplo, R$ 120 em cinco recargas que podem durar cerca de dois meses, por que a empresa fabricaria um sistema no qual as lâminas custam centavos e o barbeador pode durar décadas?
Na minha visão, seria quase um suicídio comercial e financeiro.
E aqui entra a minha teoria, deixando claro que é apenas a análise de um leigo.
Imagino que a Gillette tenha pensado mais ou menos assim,
"Existem várias marcas surgindo com safety razors. Elas estão fazendo barulho, atraindo consumidores e, de alguma maneira, estamos perdendo espaço. Vamos lançar um barbeador clássico, mas que não seja, nem de longe, um produto capaz de competir de verdade com nossos cartuchos."
O consumidor então compra um King C Gillette pensando,
"Finalmente vou experimentar um produto clássico, fabricado justamente pela empresa que criou esse conceito e que agora está sendo novamente valorizado por tanta gente."
É importante fazer uma distinção aqui. Para quem já conhece safety razors, já utiliza outras máquinas e sabe trabalhar com diferentes níveis de exposição, ângulo e pressão, o King C Gillette pode até se tornar um aparelho interessante, dependendo do que esse usuário procura. O foco da minha análise, porém, é outro,; o consumidor que está saindo diretamente dos descartáveis ou dos cartuchos e está tendo seu primeiro contato com um safety razor.
Esse consumidor começa a usar o aparelho e percebe que, para conseguir uma barba realmente rente, precisa passar, passar e passar a lâmina várias vezes sobre o mesmo lugar.
Vem a irritação, a vermelhidão e, eventualmente, aquela sensação de que alguma coisa não deu certo.
aí o consumidor pensa,
"Então era isso? Acho que vou voltar para os meus cartuchos."
Os cartuchos são caros, sem dúvida, mas são mais eficientes para esse usuário. Ele não precisa aprender a controlar um barbeador tradicional, não precisa manipular lâminas soltas, não precisa se preocupar tanto com ângulo, pressão e técnica e, no final, acredita que consegue um resultado melhor com menos esforço.
Existe ainda outro ponto, quem migra diretamente de descartáveis ou cartuchos para um safety razor tende a aplicar a mesma pressão que estava acostumado a aplicar no rosto com os descartáveis....
E aí temos a receita perfeita para reproduzir justamente aquilo que o consumidor imaginava que deixaria para trás ao abandonar os cartuchos, irritação, vermelhidão e desconforto.
Por isso, minha impressão é que o King C Gillette não tenha sido pensado para conquistar definitivamente o consumidor e tirá-lo do sistema de cartuchos.
Talvez tenha sido pensado justamente para mostrar a ele que o sistema tradicional não funciona tão bem assim e, consequentemente, fazê-lo voltar para aquilo que a Gillette realmente ganha dinheiro vendendo.
É apenas uma teoria, claro. Mas, olhando pela ótica de uma empresa que precisa proteger seu principal modelo de negócio, não me parece uma hipótese tão absurda.
abs
A sua teoria é instigante, Igor, e confesso que no universo corporativo não faltam jogadas de bastidor para fazer o tiro sair pela culatra de propósito. No entanto, analisando o panorama macro de negócios e o timing desse lançamento, enxergo um movimento ligeiramente diferente por parte da P&G.
Se você acessar a página dedicada ao aparelho no site oficial da Gillette americana, eles tentam seduzir o consumidor exatamente com a seguinte promessa de marketing: "closer shave, better control, and reduced skin irritation".
Agora pense comigo: barbear mais rente (closer), melhor controle (better) e menor irritação na pele (reduced). No inglês, quando usamos essa terminação comparativa, pressupomos uma referência direta. Melhor e mais rente em relação a quê, exatamente? Se for em relação aos próprios cartuchos multilâminas que eles passaram os últimos 40 anos empurrando na goela do consumidor, a própria Gillette estaria admitindo por A mais B a superioridade mecânica de uma lâmina única. É quase uma confissão involuntária de culpa.
A partir dessa contradição, enxergo dois caminhos possíveis:
O primeiro seria a sua tese: uma manobra cínica para colocar um prego no caixão do barbear tradicional, na qual o leigo compra um safety razor excessivamente suave, aplica a força errada, se esfolia por repetição de passes, se frustra e corre de volta para a falsa segurança de um Fusion ou Mach3.
O segundo caminho, que considero o mais provável financeiramente, é que a Gillette simplesmente sentiu a mordida da concorrência e resolveu estancar a perda de território. Embora no Brasil o barbear clássico ainda seja um nicho restrito, no mercado norte-americano e europeu esse movimento vinha acumulando tração constante.
Basta olhar para o calendário de surgimento das marcas que começaram a roubar fatias da base de consumidores:
- The Goodfella's Smile: lançada em 2011 na Itália
- Rockwell Razors: lançada em 2014 no Canadá
- Supply Provision Co: lançada em 2015 nos Estados Unidos
- Leaf Shave: viabilizada via financiamento coletivo entre 2016 e 2018
- Henson Shaving: lançada em 2020 no Canadá
- Lambda Razors: lançada em 2021 na Grécia
Isso sem falar em marcas tradicionais que nunca deixaram de operar e vinham ganhando novo fôlego com as vendas online:
- Mühle: desde 1945 na Alemanha
- Edwin Jagger: desde 1988 no Reino Unido (sediada em Sheffield, o mesmo berço histórico de gigantes da cutelaria como a Wade & Butcher)
- Merkur: desde 1896 na lendária cidade de Solingen, Alemanha.
Existe um padrão claro aqui. Pessoas insatisfeitas com preços abusivos de refis e irritações crônicas na pele começaram a buscar alternativas fora da gôndola do supermercado e caíram de cabeça no nosso meio. E a data de lançamento global da linha King C. Gillette não mente: ocorreu em meados de maio de 2020, exatamente no auge da pandemia, quando milhões de pessoas presas em casa começaram a rever hábitos diários de autocuidado. Um prova cabal disso é o subfórum r/wicked_edge no Reddit, que explodiu em milhares de novos inscritos diários nesse exato período. Muito provavelmente a P&G observou as métricas de busca no Google Trends por "safety razor" e "tradicional shaving" dispararem em 2020 e acelerou o lançamento para colocar um produto no mercado enquanto o assunto estava quente.
A P&G é uma máquina gigantesca de dados de consumo; eles sabiam que estavam perdendo a nova geração que busca sustentabilidade (zero plástico) e baixo custo de manutenção.
O problema é que quiseram abraçar o mundo com as pernas.
Entregaram um aparelho deliberadamente conservador para evitar processos judiciais e devoluções em massa de iniciantes inexperientes, mas acabaram alienando tanto o usuário avançado (que achou a máquina mansa demais) quanto o leigo absoluto (que não tem a paciência de aprender a técnica). Sabemos que o americano médio é litigioso. Se a Gillette lança um aparelho agressivo ou um open comb exposto e o primeiro adolescente arranca uma fatia do queixo na pia, a marca responde a processos e manchetes negativas na imprensa.
Talvez uma cabeça open comb vendida como acessório à parte já teria mudado da água para o vinho a percepção dos aficionados.
No fim das contas, a ironia é evidente: a Gillette tentou morder o mercado que ela mesma ajudou a dizimar quando lançou o Trac II em 1971.
Seria essa jogada uma tentativa tardia de reparação histórica, ou apenas o desespero de um pioneiro tentando lembrar ao mundo que foi ele quem inventou a roda antes que seu próprio legado caísse no esquecimento?
