(07-10-2026)Haok Escreveu: A sua teoria é instigante, Igor, e confesso que no universo corporativo não faltam jogadas de bastidor para fazer o tiro sair pela culatra de propósito. No entanto, analisando o panorama macro de negócios e o timing desse lançamento, enxergo um movimento ligeiramente diferente por parte da P&G.
Se você acessar a página dedicada ao aparelho no site oficial da Gillette americana, eles tentam seduzir o consumidor exatamente com a seguinte promessa de marketing: "closer shave, better control, and reduced skin irritation".
Agora pense comigo: barbear mais rente (closer), melhor controle (better) e menor irritação na pele (reduced). No inglês, quando usamos essa terminação comparativa, pressupomos uma referência direta. Melhor e mais rente em relação a quê, exatamente? Se for em relação aos próprios cartuchos multilâminas que eles passaram os últimos 40 anos empurrando na goela do consumidor, a própria Gillette estaria admitindo por A mais B a superioridade mecânica de uma lâmina única. É quase uma confissão involuntária de culpa.
A partir dessa contradição, enxergo dois caminhos possíveis:
O primeiro seria a sua tese: uma manobra cínica para colocar um prego no caixão do barbear tradicional, na qual o leigo compra um safety razor excessivamente suave, aplica a força errada, se esfolia por repetição de passes, se frustra e corre de volta para a falsa segurança de um Fusion ou Mach3.
O segundo caminho, que considero o mais provável financeiramente, é que a Gillette simplesmente sentiu a mordida da concorrência e resolveu estancar a perda de território. Embora no Brasil o barbear clássico ainda seja um nicho restrito, no mercado norte-americano e europeu esse movimento vinha acumulando tração constante.
Basta olhar para o calendário de surgimento das marcas que começaram a roubar fatias da base de consumidores:
- The Goodfella's Smile: lançada em 2011 na Itália
- Rockwell Razors: lançada em 2014 no Canadá
- Supply Provision Co: lançada em 2015 nos Estados Unidos
- Leaf Shave: viabilizada via financiamento coletivo entre 2016 e 2018
- Henson Shaving: lançada em 2020 no Canadá
- Lambda Razors: lançada em 2021 na Grécia
Isso sem falar em marcas tradicionais que nunca deixaram de operar e vinham ganhando novo fôlego com as vendas online:
- Mühle: desde 1945 na Alemanha
- Edwin Jagger: desde 1988 no Reino Unido (sediada em Sheffield, o mesmo berço histórico de gigantes da cutelaria como a Wade & Butcher)
- Merkur: desde 1896 na lendária cidade de Solingen, Alemanha.
Existe um padrão claro aqui. Pessoas insatisfeitas com preços abusivos de refis e irritações crônicas na pele começaram a buscar alternativas fora da gôndola do supermercado e caíram de cabeça no nosso meio. E a data de lançamento global da linha King C. Gillette não mente: ocorreu em meados de maio de 2020, exatamente no auge da pandemia, quando milhões de pessoas presas em casa começaram a rever hábitos diários de autocuidado. Um prova cabal disso é o subfórum r/wicked_edge no Reddit, que explodiu em milhares de novos inscritos diários nesse exato período. Muito provavelmente a P&G observou as métricas de busca no Google Trends por "safety razor" e "tradicional shaving" dispararem em 2020 e acelerou o lançamento para colocar um produto no mercado enquanto o assunto estava quente.
A P&G é uma máquina gigantesca de dados de consumo; eles sabiam que estavam perdendo a nova geração que busca sustentabilidade (zero plástico) e baixo custo de manutenção.
O problema é que quiseram abraçar o mundo com as pernas.
Entregaram um aparelho deliberadamente conservador para evitar processos judiciais e devoluções em massa de iniciantes inexperientes, mas acabaram alienando tanto o usuário avançado (que achou a máquina mansa demais) quanto o leigo absoluto (que não tem a paciência de aprender a técnica). Sabemos que o americano médio é litigioso. Se a Gillette lança um aparelho agressivo ou um open comb exposto e o primeiro adolescente arranca uma fatia do queixo na pia, a marca responde a processos e manchetes negativas na imprensa.
Talvez uma cabeça open comb vendida como acessório à parte já teria mudado da água para o vinho a percepção dos aficionados.
No fim das contas, a ironia é evidente: a Gillette tentou morder o mercado que ela mesma ajudou a dizimar quando lançou o Trac II em 1971.
Seria essa jogada uma tentativa tardia de reparação histórica, ou apenas o desespero de um pioneiro tentando lembrar ao mundo que foi ele quem inventou a roda antes que seu próprio legado caísse no esquecimento?
Apesar de que alguns comentários a seguir podem ser vistos como positivos em relação ao fabricante, não é minha intenção advogar em favor da Gillette

Indo muito diretamente a alguns pontos que eu considero relevantes nessa discussão:
A Gillette literalmente conduziu a mudança do modelo tradicional de aparelhos duráveis com lâminas descartáveis para o modelo definido como de cartuchos em plástico, descartáveis ou de barbeadores que são descartáveis por inteiro, cabo e tudo mais. Não me parece que a empresa agora entenderia como ameaça o retorno aos produtos tradicionais. E também não levantariam a bandeira da superioridade da lâmina única frente aos cartuchos, como comentou o Haok.
Mais do que isso, se assim entendesse, a Gillette poderia se posicionar de outra maneira, com modelos diferentes para todos os gostos, em termos de estilo e agressividade. Certamente não faltariam recursos para pesquisa, desenvolvimento e distribuição. Por isso também não me parece que querem defender o território ou terem qualquer competitividade nesse nicho, tendo somente 1 produto.
A questão de que a agressividade moderada teria o propósito de evitar processos judiciais me pasou pela cabeça em algum momento mas eu avaliei como pouco sustentável também considerando que eles vendem as lâminas, que em si são muito mais perigosas se manuseadas incorretamente. Não sei se caberia um questionamento judicial para um produto em que o risco de corte é inerente, é sua função principal. Todas as empresas vendendo barbeadores agressivos estariam sijeitas aos mesmos processos. Temos ainda como exemplo outra grande corporação que lançou um produto ainda mais agressivo com sua marca, um navalhete > https://www.wilkinsonsword.com/products/the-straight-edge-razor
Aqui podemos aplicar um princípio de lógica que se torna interessante para essa discussão também pela coincidência de termos: uma navalha filosófica, no caso a de Occam (Occam's razor). Por esse princípio, se considera que a explicação mais provável é aquela que necessita de menos suposições para fazer sentido.
Navegando pelo site, que eu já conhecia mas agora com mais atenção para o posicionamento dos produtos, noto que o barbeador KCG faz parte de uma linha particular (specialty) com produtos para cuidados com a barba. As próprias imagens de uso são de um indivídio com barba, fazendo apenas a manutenção do contorno (o verbo utilizado é edging). Nos ícones, ao lado dos textos descritivos mais abaixo, também são representados homens com barba.
Minha conclusão, com base no próprio conteúdo de apresentação da Gillette, é de que se buscou o posicionamento em um nicho, mas não exatamente em nosso nicho (entusiastas de barbeadores tradicionais): o KCG é apresentado como complemento de uma linha de aparadores, shampoos, óleos etc para uam boa manutenção da barba. Eu nunca usei barba mas suponho que para tratar o contorno, um aparelho de cartucho pode ser menos prático pois não têm o fio bem definido. Ser eficiente ou agressivo não seria necessariamente o objetivo maior, tendo isso em mente. E até o preço das lâminas ficaria como uma questão secundária nesse aspecto pois para trabalhar somente no contorno uma lâmina pode durar bastante tempo.
Enfim, essa é só mais uma percepção – fazendo sentido ou não, trocar ideias sobre esse tema é sempre agradável.
