Todo mundo entra no barbear tradicional pelo mesmo motivo. E acaba no mesmo lugar

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Todo mundo entra no barbear tradicional pelo mesmo motivo. E acaba no mesmo lugar.

Todo praticante de barbear clássico já ouviu essa frase.

Alguns, inclusive, disseram isso para a esposa.

"Olha, amor, vou parar de comprar cartuchos. Vou economizar uma grana. Pelas minhas contas, daqui a pouco dá até para a gente passar três ou quatro dias no Guarujá."

E acreditaram.

Tudo começa de forma inocente.

O cidadão entra na internet e descobre o preço dos cartuchos.

"Como assim? Cento e vinte reais por cinco recargas? Esses caras enlouqueceram?"

Ele começa a fazer contas.

Lembra que o avô fazia a barba com um velho Gillette e não gastava nem uma fração daquilo.

O véio estava sempre bem barbeado, com a cara lisinha, nunca reclamava de cortes, coceira ou irritação.

Ou o velho era casca-grossa... ou esse negócio de barbeador de metal realmente funciona.

Além disso, pensa:

"E eu ainda fico cheio de irritação na pele."

Então surge a solução perfeita.

"Vou comprar um barbeador de segurança e economizar uma fortuna."

"Vou comprar um desses barbeadores de metal igual ao do velho."

Parece um plano impecável.

Ele compra aquele da Inox de nove reais.

E dá muito errado.

Claro.

Mas, mesmo assim, ele gosta da coisa.

Seis meses depois — e um nickname criado no Fórum Barbear Tradicional — a realidade é a seguinte:

• 14 barbeadores

• 11 pincéis

• 23 sabonetes

• 8 loções pós-barba

• 4 suportes de aço inox

• 700 lâminas estocadas para o apocalipse

E uma planilha para controlar a rotatividade dos produtos e garantir que a próxima foto do barbear do dia no fórum não repita nenhum item da semana anterior.

Mas economizou.

Enquanto isso, existe outro sujeito.

O nome dele é José.

José compra um pacote de Bic descartável.

Entra no chuveiro.

Passa sabonete Lux no rosto.

Faz a barba olhando para aquela marca escura no rejunte do azulejo.

Pensando no que vai almoçar no domingo.

Três minutos depois, terminou.

Pós-barba?

José jamais ouviu falar disso.

Blade gap?

Nunca.

Exposição de lâmina?

Também não.

Open comb?

Closed comb?

Parece nome de peça da Volkswagen.

José gasta menos de dez reais por mês.

Nunca teve vermelhidão.

Nunca teve irritação.

Nunca leu uma discussão sobre lâminas na internet.

José é feliz.

E nem sabe.

E dorme tranquilamente todas as noites com o rosto liso.

Já o praticante de barbear clássico...

Passa duas horas pesquisando se um cabo de titânio grau 5 produz melhor equilíbrio dinâmico do que um cabo de aço inox 316L.

Enquanto isso, o chefe o chama no Teams para perguntar daquela planilha atrasada.

Depois participa de uma discussão com 47 mensagens para descobrir se uma Feather mantém o máximo poder de corte até o sétimo uso ou apenas até o sexto, ou se uma lâmina Cae pode ser utilizada por um iniciante sem risco de vida.

Enquanto isso, uma mensagem da esposa aparece na tela do celular e permanece sem resposta por mais de vinte minutos.

Isso certamente vai render uma conversa interessante mais tarde.

Em seguida, compra mais um barbeador.

Só porque sim.

Afinal, os outros 14 não foram projetados para extrair todo o potencial daquela lâmina obscura fabricada em algum lugar remoto do Paquistão, que ninguém conhece, mas que um sujeito num fórum garantiu ser revolucionária e cuja caixa com 20 unidades custou apenas quinhentos reais para importar.

Uma pechincha para ter o rosto liso e sem irritação.

Mas agora vai.

Porque aquele será o barbeador definitivo.

O décimo oitavo barbeador definitivo.

O curioso é que, depois de toda essa jornada, muitos acabam descobrindo uma verdade desconfortável:

O barbear tradicional nunca foi sobre economizar dinheiro.

Foi sobre transformar uma tarefa de cinco minutos em um hobby para o resto da vida.

Foi sobre olhar no espelho e gostar do resultado.

Foi sobre sentir o cheiro daquela loção pós-barba que lembra o pai, o avô, momentos da infância e tempos mais simples.

Foi sobre transformar uma obrigação diária em um pequeno ritual.

E gastar muito mais dinheiro do que gastava com cartuchos.

E suar para economizar para aquela viagem ao Guarujá.

E ser feliz mesmo assim.

Abs,

Igor.
Sensacional Maximus Brow
Você conseguiu resumir em poucas linhas toda a jornada do barbear tradicional: entramos pela economia e ficamos pelo prazer do ritual. O texto é engraçado, inteligente e dolorosamente verdadeiro para qualquer um que já comprou um barbeador "definitivo" e depois comprou outro.
Me identifiquei em muitas partes e terminei concordando com cada palavra.
4 curtida(s) para esse Post:
  • Ardyllis Alves Soares, Gustavo CDL, Joao Americo, Maximus Brow
Chamamos de hobby pq o termo é simpático. No fundo é fixação, vício...kkkkkkk
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  • Ardyllis Alves Soares, Gustavo CDL, Joao Americo, marcelbrilha, Maximus Brow
Rindo e me identificando.
Realmente muito bom.
Hoje saí do trabalho com 3 folhas na mão com todo cuidado, minha esposa resolveu dar uma olhada e começou a rir; era uma tabela de avaliação de lâminas que fiz para compará-las melhor.
3 curtida(s) para esse Post:
  • Ardyllis Alves Soares, Joao Americo, Maximus Brow
Pois eu já tive esses mesmos hábitos do José. Minha escolha por barbeadores descartáveis foi quase sempre pelo fator preço (não o menor preço absoluto mas tão perto quanto possível), já usei alguns barbeadores sofríveis inclusive o Bic descartável. É engraçado pensar que nos descartáveis, até quando tive oportunidade de usar, os barbeadores Bic são bem ruins enquanto a lâmina tradicional é uma das melhores na minha opinião.

Tenho uma vaga lembrança de ter em algum momento usado um Sensor Excel, aqueles de alguns anos (ou décadas) atrás, com corpo de metal. Devo ter conseguido alguma promoção ou algo assim. Parei nas 3 lâminas, quando começaram a aparecer os de 4 ou 5 lâminas achei um tanto absurdo. Na verdade, voltei para os de 2: durante muito tempo achei meu ponto quase ideal no Prestobarba de 2 lâminas – bom o suficiente, barato o suficiente.

Mas não foi realmente o preço que me trouxe para o barbear tradicional. Foi pura curiosidade. Pensei por muito tempo em começar com navalha de lâmina fixa, fazendo contas de quanto gastaria em uma navalha (até então só considerava a compra de uma nova), mais as pedras para afiar, mais uma cinta para assentar... Seria um investimento alto, antecipando o valor equivalente a anos comprando barbeadores descartáveis.

A solução de compromisso foi, para mim, o navalhete. Material barato, valia a tentativa pelo baixo investimento, e segui com os hábitos descritos tal qual o José, sem creme ou espuma (sabonete comum, normalmente durante o banho mesmo), sem pós barba, e tudoi bem.

Algumas vezes penso que se eu tivesse iniciado explorando a possibilidade de comprar um Tech vintage, por um preço mediano, poderia ter adotado a linha mais purista de quem não vê sentido em pagar algumas centenas de reais em um barbeador novo (e mais um, e mais outro, e mais um). Não passaria tempo lendo inúmeras avaliações e considerando esse ou aquele por conta de uma configuração ou material diferente enquanto se pode dizer que a questão já foi resolvida há décadas pelo modelo mais clássico. 

Mas tenho certeza de que não manteria essa forma de pensar por muito tempo. Talvez ficasse nisso por alguns anos... mas iria fatalmente chegar no King C Gillette, dele talvez fosse para um Merkur ou um Parker, depois para um Mühle, para falar dos mais tradicionais – e eventualmente chegaria em algum dos modernos.

Bem como esse post propõe, chegaria no mesmo lugar em que estamos  Big Grin
3 curtida(s) para esse Post:
  • Gustavo CDL, Maximus Brow, thony
Simplesmente UAU! Me identifiquei muito nesse relato!
Infelizmente (ou não) fui forçado a preterir este "hobby" (ou vício...) após as taxas e remessas do amor.
Ver o preço das coisas que mais apreciava e comprava simplesmente duplicar e até triplicar foi um remédio terrivelmente amargo.
Entretanto, vendo o lado "mirian Leitão" das coisas, vejam como isso foi vantajoso. Eliminei um comportamento consumista e aproveitei para usar mais vezes o que até havia deixado de lado.
E a ironia acaba aqui.
Pois se eu tivesse me interessado pelo tema após a chegada do "amor", a frustração seria ainda maior ao presenciar o que é oferecido lá fora e aqui termos que conviver com aparelhos fajutos imitações de Techs e quando aparece um aparelho decente como o KCG trazido pra cá à muito custo e provável contragosto da Gillette Brasil, o mesmo é tratado como "santo graal".
Então, no fim das contas sou grato de ter consequido comprar minha Yaqi TFC em latão em tempo e por um preço inimaginável hoje!
2 curtida(s) para esse Post:
  • Joao Americo, thony



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