200 km, Galinha Pintadinha e um padrinho tentando fazer a barba.

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200 km, Galinha Pintadinha e um padrinho tentando fazer a barba.

Prezados foristas,

Gostaria de compartilhar algo que aconteceu no último sábado, dia 04/07.

Fui convidado para ser padrinho de casamento de um amigo de longa data. Aceitei sem pensar duas vezes, afinal, é uma pessoa muito querida e seria uma honra estar ao lado dele nesse momento tão especial.

Porém, junto com o convite veio um pequeno desafio logístico.

A cerimônia seria realizada a quase 200 km de São Paulo, no sábado à noite. Para essa missão, eu não iria sozinho: minha esposa e minhas duas filhas, uma de 3 anos e outra de 10 anos, também iriam comigo.

Como todos sabem, viagem em família significa uma coisa: o carro parece pequeno demais antes mesmo de começar a colocar as malas.

O espaço seria extremamente disputado e a bagagem teria que ser reduzida ao mínimo.

Mas havia uma questão importante em jogo: eu queria fazer a barba no máximo uma hora antes do evento. Afinal, era um casamento, eu seria padrinho, estaria ao lado do noivo e queria chegar apresentável, com aquele barbear digno de um verdadeiro lorde inglês.

O problema era: como levar meu equipamento?

Minha primeira ideia foi a mais óbvia: levar um descartável e economizar espaço.

Confesso aos amigos que essa ideia passou pela minha cabeça.

Por aproximadamente três segundos.

Depois pensei:

"Não. Estamos falando de um casamento, de um grande amigo e de um momento especial. Não vou aparecer com uma lâmina descartável depois de tantos anos apreciando o ritual do barbear tradicional."

A partir daí começou a verdadeira batalha.

Enquanto arrumava as malas, eu colocava meu kit de barbear dentro da bagagem e pensava:

"Cabe."

Depois olhava para as roupas e pensava:

"Talvez não caiba."

Então eu tirava o kit e colocava uma peça de roupa.

Depois retirava uma peça de roupa e colocava novamente o kit.

Em determinado momento percebi que eu estava negociando espaço na mala entre minhas cuecas, minhas camisas e meu material de barbear.

Era uma verdadeira operação militar.

Caros amigos, as malas da minha esposa e das minhas filhas já ocupavam aproximadamente 95% do porta-malas. O pequeno espaço restante seria disputado ferozmente pelas minhas humildes posses.

E então veio o momento decisivo.

Minha filha de 3 anos percebeu que havia uma ameaça aos seus pertences.

Quando fiz uma pequena menção de deixar para trás meia dúzia de brinquedos e aquele enorme travesseiro que, segundo ela, era absolutamente indispensável para passar uma única noite fora de casa, ouvi um protesto digno de uma assembleia da OTAN.

Ela defendeu seus brinquedos, seu travesseiro e seus direitos com uma energia impressionante e assustadora.

Naquele momento, ergui as mãos e declarei minha derrota.

Depois de acomodar malas, crianças, esposa, aproximadamente 150 brinquedos, seis travesseiros, roupas de cama, edredons e sabe-se lá mais quantas coisas que uma família consegue levar para passar apenas uma noite fora de casa, finalmente partimos rumo ao desconhecido.

Confesso que, por um ou dois segundos, pensei em desistir.

Veio aquele pensamento perigoso:

"Será que ele é mesmo um amigo tão próximo assim?"

Mas, assim como a ideia de usar um descartável, essa ideia também não durou mais do que três segundos.

Afinal, algumas coisas na vida são importantes demais para serem abandonadas.

Um grande amigo merece nossa presença.

Enquanto montava o kit, porém, outra batalha começava dentro da minha cabeça.

Qual loção levar?

A de lavanda ou a de aloe vera?

Levo o meu Parker 87R ou um bom e velho Gillette Tech?

Quais lâminas seriam minhas companheiras nessa aventura?

As Feather, as Wilkinson ou a confiável Super Barba amarela?

Caros amigos, estas eram as grandes questões que assolavam minha mente naquele momento.

Enquanto o mundo enfrentava problemas realmente importantes, eu estava ali, diante da difícil missão de escolher qual conjunto de barbear acompanharia este humilde escriba.

Como minha necessaire iria praticamente entre meus pés, no chão do carro, pensei:

"Bom, já que vou levar isso mesmo, vou levar um pouco de tudo."

E assim começou a montagem definitiva.

Duas loções pós-barba.

Creme de barbear, sabão e até um gel de barbear.

Afinal, vai que eu precisasse fazer a barba rapidamente? Um homem prevenido vale por dois.

Levei também dois pincéis: um Omega e um Rockwell, ambos sintéticos.

E, claro, uma verdadeira coleção de lâminas.

Não vou cansá-los aqui listando todas as marcas, mas posso dizer que havia pelo menos oito ou nove opções diferentes.

Afinal...

Não pesam nada, não é mesmo?

Ao mesmo tempo em que montava todo esse arsenal, comecei a pensar nos antigos viajantes, soldados e aventureiros que se lançavam por lugares desconhecidos.

Enquanto eu estava preocupado em decidir qual pincel levar, provavelmente algum viajante do passado estava preocupado apenas em conseguir chegar vivo ao final do dia.

Enquanto ele carregava uma simples navalha e talvez um pouco de água para fazer a barba, eu estava levando sabão, creme, gel e duas opções de pós-barba.

Prioridades, meus amigos.

Prioridades.

Enquanto eu imaginava aquele viajante cansado, depois de uma longa jornada, preocupado se teria água ou comida suficiente para passar a noite, eu estava aqui pensando se meu pós-barba combinaria com meu perfume.

É impressionante como o ser humano evolui.

Uns lutavam pela sobrevivência.

Eu lutava para decidir entre lavanda e aloe vera.

Mas, no fim das contas, talvez seja justamente isso que torna o barbear tradicional tão especial.

Não é apenas tirar a barba.

É o ritual.

É aquele pequeno momento de cuidado em meio à correria da vida.

E, naquele sábado, mesmo com o porta-malas lotado, crianças, brinquedos e toda a logística familiar, eu queria preservar esse pequeno momento.

Depois de tudo isso, comecei a pensar em algo curioso.

Talvez, no fundo, todos nós sejamos viajantes tentando atravessar nossas próprias jornadas.

O desbravador de séculos passados atravessava terras desconhecidas, enfrentava longas jornadas, incertezas e perigos que faziam parte daquela época.

Eu, por minha vez, estava ali, no meio da minha grande expedição, debatendo internamente uma das decisões mais importantes da viagem:

Levar o suco de pêssego ou o suco de maçã para continuar a jornada.

Afinal, eram os sucos preferidos das minhas filhas e, em uma viagem de quase 200 km com duas crianças, qualquer detalhe que pudesse manter a paz dentro do veículo era considerado uma decisão sábia.

Cada época tem seus próprios desafios.

Depois de toda essa preparação, finalmente veio um dos momentos mais importantes: o barbear.

E preciso dizer: foi muito bom.

Usei o Parker 87R, uma lâmina Wilkinson, o pincel da Omega e o bom e velho sabão Rockwell. Para finalizar com chave de ouro, usei a lavanda da Ruas.

Quando fiquei pronto, minha esposa olhou para mim e disse:

"Meu Deus, tanta preocupação, tanto planejamento, para no final você fazer a barba do mesmo jeito que sempre faz?"

Eu ri, claro.

Mas, ao mesmo tempo, fiquei imaginando um daqueles homens durões de 150 ou 200 anos atrás, depois de atravessar um dia exaustivo, repleto de incertezas, perigos e desafios que poderiam colocar sua própria vida em risco, pegando sua navalha, passando o fio pelo couro da bota e fazendo sua barba antes de continuar sua jornada.

E não pude deixar de pensar:

Será que somos tão diferentes assim?

Ele poderia estar enfrentando terras desconhecidas, longas jornadas e perigos que faziam parte daquela época.

Eu poderia estar enfrentando uma viagem pela Rodovia Dutra, preocupações da vida, trânsito e desafios modernos de uma expedição familiar, como garantir que a playlist da Galinha Pintadinha continuasse funcionando e que ninguém perguntasse a cada cinco minutos: "Já chegou?"

No fim, talvez a diferença seja apenas o cenário.

Mas tanto aquele homem durão de 150 ou 200 anos atrás quanto eu buscávamos a mesma coisa:

Chegar ao final do dia com a sensação de que vencemos mais uma etapa da jornada.

E naquele momento percebi que, no final das contas, o equipamento era apenas uma parte da história.

O mais importante era poder estar presente em um dia tão especial.

Era celebrar a história de uma amizade.

Era reservar alguns minutos para um pequeno ritual pessoal antes de um grande momento.

E, claro...

Chegar ao púlpito ao lado do noivo exibindo uma barba impecável, digna de um lorde inglês.

abs,

Igor.
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  • Joao Americo



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