Colecionar Faz Bem? Os Limites Entre Paixão, Hobby e Compulsão.

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Colecionar Faz Bem? Os Limites Entre Paixão, Hobby e Compulsão.

Prezados Foristas,

Colecionar objetos é um comportamento muito mais comum do que pode parecer. Pessoas colecionam livros, moedas, brinquedos, discos, relógios, antiguidades, miniaturas, instrumentos, barbeadores e inúmeros outros objetos. Mas o que a psicologia e a psiquiatria dizem sobre esse hábito? Quando estamos diante de um hobby normal e quando ele pode se transformar em um comportamento problemático?

A primeira coisa importante é entender que colecionismo e transtorno de acumulação não são a mesma coisa.

Colecionar é, em si, um problema?

Não. A literatura científica considera o colecionismo uma forma comum de comportamento humano e alerta para o risco de transformar automaticamente uma atividade normal em um problema psicológico.

Uma revisão publicada na revista Clinical Psychology Review destaca justamente essa questão: embora existam semelhanças entre colecionismo e acumulação patológica, a maioria dos colecionadores não apresenta transtorno de acumulação. Os pesquisadores ressaltam que é importante evitar a patologização de um comportamento amplamente disseminado. PubMed

A American Psychiatric Association também diferencia claramente colecionismo de transtorno de acumulação. Segundo a entidade, colecionadores normalmente procuram objetos específicos de maneira intencional e organizada. A coleção costuma possuir um tema ou critério definido e os objetos podem ser organizados, admirados ou exibidos. Psiquiatria

Portanto, possuir muitos objetos não é, por si só, sinal de doença.

Quais podem ser os aspectos positivos?

O colecionismo pode proporcionar prazer, entretenimento e satisfação pessoal. A busca por determinado objeto, a pesquisa sobre sua história, a comparação entre modelos e a organização da coleção podem se transformar em atividades bastante envolventes.

Também existe um componente de conhecimento. Muitos colecionadores desenvolvem um nível elevado de especialização sobre aquilo que colecionam, conhecendo fabricantes, modelos, períodos históricos, diferenças de fabricação, materiais e características específicas.

Outro aspecto importante é a identidade. Uma coleção pode representar interesses pessoais e funcionar como uma forma de expressão. Para algumas pessoas, os objetos também possuem valor afetivo porque estão relacionados a lembranças, experiências ou determinadas fases da vida.

Além disso, colecionar pode ter uma dimensão social. Comunidades de colecionadores permitem trocar informações, compartilhar experiências e estabelecer relações com pessoas que possuem interesses semelhantes.

Nada disso é considerado, por si só, um comportamento patológico.

Então onde está o problema?

O ponto central não é a quantidade de objetos, mas a relação da pessoa com eles.

Uma pessoa pode possuir uma coleção grande, organizada e perfeitamente administrável. Outra pode ter uma coleção relativamente pequena, mas apresentar sofrimento, perda de controle ou problemas financeiros relacionados às compras.

Por isso, perguntas como estas são mais importantes do que simplesmente contar quantos objetos existem:

Eu consigo decidir quando comprar e quando não comprar?

Consigo deixar de adquirir novos objetos durante algum tempo?

Minha coleção está dentro das minhas possibilidades financeiras?

Consigo me desfazer de alguma peça quando isso é necessário?

Minha coleção interfere no meu trabalho, nos meus relacionamentos ou na minha rotina?

Essas questões ajudam a identificar se o hobby continua sendo uma atividade escolhida ou se começa a assumir um papel excessivo na vida da pessoa.

Quando o colecionismo começa a fugir do controle?

Alguns sinais merecem atenção.

Entre eles estão a aquisição impulsiva e repetitiva, a dificuldade de controlar os gastos, a continuidade das compras mesmo diante de problemas financeiros, o acúmulo desorganizado e a dificuldade extrema de se desfazer de objetos.

Também pode ser preocupante quando a coleção começa a ocupar espaços que deveriam ter outras funções, provoca conflitos familiares, interfere no trabalho ou leva a pessoa a evitar receber outras pessoas em casa.

A Mayo Clinic destaca que, no transtorno de acumulação, a pessoa pode apresentar dificuldade persistente para descartar ou se separar de objetos, independentemente de seu valor real, acompanhada de sofrimento diante da possibilidade de perdê-los. O acúmulo pode chegar ao ponto de comprometer o uso normal dos ambientes e o funcionamento cotidiano. Mayo Clinic

Colecionismo não é transtorno de acumulação

Essa talvez seja a distinção mais importante.

No colecionismo, normalmente existe seleção. O indivíduo procura determinados objetos, segue algum critério e costuma organizar aquilo que adquiriu.

No transtorno de acumulação, a aquisição pode ser mais impulsiva e a dificuldade de descartar objetos é muito mais intensa. A desorganização e o comprometimento dos espaços de convivência também são características importantes.

A American Psychiatric Association explica que, enquanto colecionadores normalmente possuem um tema específico e adquirem objetos de maneira organizada e intencional, pessoas com transtorno de acumulação podem adquirir objetos de maneira mais impulsiva e apresentar dificuldade significativa para organizar e descartar seus pertences. Psiquiatria

Uma pesquisa publicada na Comprehensive Psychiatry comparou colecionadores e pessoas com transtorno de acumulação justamente para estudar essas diferenças. Os resultados reforçam que existem características capazes de distinguir o colecionismo considerado normal da acumulação patológica. PubMed

E quando existe sofrimento?

Quando a dificuldade de descartar, a aquisição ou o acúmulo provocam sofrimento significativo ou prejudicam a vida cotidiana, pode existir um transtorno de acumulação, que é uma condição reconhecida pela psiquiatria.

Entre suas possíveis consequências estão conflitos familiares, isolamento social, dificuldades profissionais e problemas relacionados à segurança e à utilização da própria residência. Em casos graves, o excesso de objetos pode criar riscos físicos e comprometer atividades básicas do dia a dia. Psiquiatria

É importante lembrar que não cabe ao próprio colecionador ou a outra pessoa fazer um diagnóstico apenas observando o tamanho de uma coleção. O diagnóstico depende da avaliação de um profissional de saúde mental.

Existe tratamento?

Sim. Quando existe transtorno de acumulação, a terapia cognitivo comportamental é uma das principais abordagens utilizadas.

O tratamento pode trabalhar as crenças relacionadas aos objetos, a necessidade de adquirir novos itens, a dificuldade de tomar decisões, a organização e a capacidade de se desfazer gradualmente de determinados pertences. Mayo Clinic

O objetivo não é simplesmente mandar a pessoa jogar tudo fora. A intervenção procura modificar a relação problemática com os objetos e desenvolver habilidades que permitam uma vida mais funcional.

Afinal, quando devemos nos preocupar?

Talvez a melhor pergunta não seja:

Tenho objetos demais?

Mas sim:

Eu controlo minha coleção ou minha coleção está começando a controlar minhas decisões?

Ter uma coleção grande não significa, automaticamente, ter um problema psicológico. Gostar de pesquisar, comprar, organizar e utilizar determinados objetos pode ser simplesmente um hobby.

O sinal de alerta aparece quando a pessoa perde a capacidade de estabelecer limites, sofre com isso ou começa a pagar um preço significativo em outras áreas da vida.

Em outras palavras: o problema não está necessariamente em possuir muitos objetos. Está em perder o controle sobre a relação com eles.

E essa diferença é justamente o que separa um colecionador de uma situação que pode exigir atenção profissional.

Referências

1. American Psychiatric Association — What is Hoarding Disorder?

American Psychiatric Association — What is Hoarding Disorder?

[https://www.psychiatry.org/patients-fami...-disorder)

2. Mayo Clinic — Hoarding disorder: Symptoms and causes.

Mayo Clinic — Symptoms and causes

[https://www.mayoclinic.org/diseases-cond...-20356056)

3. Mayo Clinic — Hoarding disorder: Diagnosis and treatment.

Mayo Clinic — Diagnosis and treatment

[https://www.mayoclinic.org/diseases-cond...-20356062)

4. Nordsletten, A. E.; Mataix Cols, D. — Hoarding versus collecting: where does pathology diverge from play? Clinical Psychology Review, 2012.

PubMed — Hoarding versus collecting

[https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22322013...22322013/)

5. Nordsletten, A. E.; Fernández de la Cruz, L.; Billotti, D.; Mataix Cols, D. — Finders keepers: the features differentiating hoarding disorder from normative collecting. Comprehensive Psychiatry, 2013.

PubMed — Finders keepers

[https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22995450...22995450/)

6. Pertusa, A. et al. — Refining the diagnostic boundaries of compulsive hoarding: a critical review. Clinical Psychology Review, 2010.

PubMed — Refining the diagnostic boundaries of compulsive hoarding

[https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20189280...20189280/)

abs,

Igor.
1 curtida(s) para esse Post:
  • fsmishima
Ufa........agora sei que não sou doido, graças a excelente explanação do Maximus.
Agora sei que minha coleção é normal, afinal 22 barbeadores, 40 sabões e uma dúzia de ASL (pouco né?), não configura doidera.
Além de usar tudo em rotação ainda me divirto pesquisando a história deles.
Poderia viver com 1 barbeador apenas? Claro que sim......mas aí seria um hábito cotidiano de fazer a barba. Prefiro ter opções, escolhas: uso Palmindaya ou Bozzano hj?
Pequenas coisas que dão prazer num habito que seria simples, não fosse tão hobby.
2 curtida(s) para esse Post:
  • fsmishima, Maximus Brow



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