Bilhar, café e sanguessugas: a história das barbearias no Brasil

0 Respostas, 16 Views

Bilhar, café e sanguessugas: a história das barbearias no Brasil

Quando pensamos em uma barbearia antiga, geralmente imaginamos uma cadeira de couro, um grande espelho, algumas navalhas, tesouras, pincéis de barba e um barbeiro trabalhando tranquilamente enquanto conversa com seus clientes. Mas a história das barbearias brasileiras é muito mais curiosa do que essa imagem tradicional pode sugerir.

Houve um tempo em que entrar em uma barbearia significava muito mais do que cortar o cabelo ou fazer a barba. Era possível encontrar café, mesas de bilhar, perfumes, charutos, jornais e, acreditem, até sanguessugas à venda.

Durante boa parte do século XIX, o barbeiro brasileiro era um profissional de múltiplas habilidades. Além de cuidar dos cabelos e das barbas, alguns também realizavam sangrias, aplicavam ventosas, utilizavam sanguessugas e exerciam atividades que hoje seriam consideradas próprias de profissionais da saúde.

Para entender como chegamos às barbearias tradicionais que conhecemos hoje, vale voltar algumas décadas e conhecer histórias que ficaram registradas em jornais, documentos e pesquisas históricas.

## O barbeiro que também era cirurgião

No Brasil do século XIX, a profissão de barbeiro tinha uma relação bastante próxima com determinadas práticas de cura.

Naquela época, a medicina ainda era muito diferente da atual. A sangria, por exemplo, era utilizada como tratamento para diversas enfermidades. Acreditava-se que retirar determinada quantidade de sangue poderia ajudar a restabelecer o equilíbrio do organismo.

Os barbeiros que dominavam essas técnicas eram conhecidos como barbeiros-sangradores.

Eles podiam utilizar lancetas para realizar sangrias, aplicar ventosas e colocar sanguessugas sobre a pele dos pacientes. Essas pequenas criaturas, também chamadas de bichas nos anúncios da época, eram utilizadas para retirar sangue.

E não estamos falando de uma prática isolada ou de alguns profissionais excêntricos. No Rio de Janeiro, durante a segunda metade do século XIX, havia centenas de barbeiros anunciando seus serviços.

Uma pesquisa publicada na Revista de História da USP, em 2017, apresenta a trajetória de Antônio José Dutra, um barbeiro africano que viveu no Rio de Janeiro.

Nascido no Reino do Congo, Dutra chegou ao Brasil escravizado e conquistou sua liberdade no início da década de 1820. Construiu uma trajetória impressionante. Quando morreu, em 1849, possuía uma barbearia, uma banda de música, imóveis e outros bens.

Sua história também revela a importância dos barbeiros negros na sociedade brasileira daquele período.

A profissão não se limitava ao trabalho com navalhas e tesouras. Alguns barbeiros eram músicos, comerciantes e personagens conhecidos de suas comunidades.

## Sanguessugas para alugar e vender

Se a história dos barbeiros-sangradores já parece curiosa, os anúncios publicados nos jornais da época tornam tudo ainda mais interessante.

Em 1861, na cidade de João Pessoa, então conhecida como Paraíba, um barbeiro chamado Antônio Luiz Leite anunciava em seu estabelecimento a venda e o aluguel de sanguessugas importadas de Hamburgo, na Alemanha.

O anúncio informava que ele também se encarregava de aplicar os animais nos pacientes.

Imagine a situação, alguém entrava na barbearia para aparar a barba e encontrava, além dos instrumentos tradicionais, sanguessugas disponíveis para tratamento.

Naquele período, esses animais tinham valor comercial e eram utilizados por diferentes profissionais da saúde.

A prática também aparece em registros do Rio de Janeiro. Uma pesquisa histórica sobre Antônio José Dutra menciona que, em 1838, a Santa Casa de Misericórdia utilizou 250 sanguessugas no tratamento de um marinheiro russo que havia sofrido um ferimento causado por uma facada.

É difícil imaginar uma ligação mais inesperada entre o universo do barbear e a história da medicina.

## Bilhar, café e navalhas, o Salão Goyer

Avançando algumas décadas, encontramos uma história que parece antecipar o conceito das barbearias modernas.

Em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, existiu um estabelecimento chamado Goyer, Barbearia, Café e Bilhar.

Um anúncio publicado em 12 de junho de 1904 no jornal O Cosmopolita apresentava o estabelecimento de Pedro Flores Goyer, localizado próximo à Praça Dante Alighieri.

O negócio reunia três atividades no mesmo endereço.

Havia uma seção de barbearia, onde os clientes podiam cuidar dos cabelos e da barba; uma seção de café, que oferecia bebidas; e uma seção de bilhar, com uma mesa destinada aos jogos.

Em outras palavras, o cliente podia fazer a barba, tomar alguma coisa e jogar uma partida de bilhar antes de ir embora.

Em 1909, o estabelecimento já era conhecido como Salão Goyer e anunciava melhorias, além de uma variedade de produtos masculinos.

Entre os artigos comercializados estavam gravatas, colarinhos, punhos, perfumes, charutos, cigarros e outros acessórios.

O salão também fazia questão de destacar a qualidade de suas tesouras e navalhas e o cuidado com a limpeza.

Em 1914, outra novidade aparecia nos anúncios, o estabelecimento contava com ventiladores e desinfecção das ferramentas.

É interessante perceber que a ideia de transformar a barbearia em um espaço de convivência, com entretenimento e outros serviços, não é uma invenção recente. Mais de um século atrás, o Salão Goyer já trabalhava com essa proposta.

## Salão Cristal, uma viagem ao passado em Lavras

Outra história interessante vem de Lavras, em Minas Gerais.

O Salão Cristal é um dos estabelecimentos tradicionais da cidade e preserva um ambiente que remete às antigas barbearias brasileiras.

Seu mobiliário inclui espelhos bisotados e cadeiras antigas, algumas com mais de um século de existência.

O estabelecimento passou por diferentes endereços e enfrentou situações bastante difíceis ao longo de sua trajetória.

Em uma ocasião, um incêndio atingiu o prédio onde funcionava. O mobiliário foi retirado às pressas e levado para outro local, numa tentativa de preservar aquele patrimônio.

Anos depois, outro incêndio atingiu o prédio onde o salão estava instalado. Mais uma vez, o estabelecimento conseguiu sobreviver.

Uma reportagem publicada em 2023 pelo Jornal de Lavras contou parte dessa história e apresentou o trabalho de Luiz Henrique de Almeida, profissional que já estava ligado ao salão havia décadas.

Mais do que um local para cortar cabelos, o Salão Cristal representa a preservação de uma parte da memória da cidade.

## As barbearias como pontos de encontro

No século XIX, as barbearias também desempenhavam um importante papel social.

Em muitas cidades brasileiras, eram lugares de encontro e circulação de notícias. Os clientes conversavam sobre acontecimentos locais, política, negócios e assuntos do cotidiano.

Uma pesquisa histórica da Casa de Oswaldo Cruz, instituição ligada à Fiocruz, revelou um dado impressionante, na segunda metade do século XIX, o Centro do Rio de Janeiro chegou a ter pelo menos uma barbearia por rua.

O levantamento foi realizado a partir de anúncios publicados no Almanak Laemmert, uma importante publicação que reunia informações comerciais e profissionais do Brasil imperial.

Os anúncios permitiram identificar barbeiros, endereços e a distribuição desses estabelecimentos pela cidade.

A barbearia era, portanto, parte importante da vida urbana. Não era apenas um comércio de serviços pessoais, mas também um espaço de convivência masculina e troca de informações.

## Uma profissão que atravessou gerações

Com o passar do tempo, as atividades médicas foram sendo separadas da profissão de barbeiro. As sangrias perderam espaço, as sanguessugas deixaram de fazer parte da rotina das barbearias e os instrumentos foram se modernizando.

Vieram as máquinas elétricas, os aparelhos de segurança, os produtos industrializados e novas técnicas de corte.

Mas algumas coisas permaneceram.

A cadeira de barbeiro continuou sendo um símbolo da profissão. O espelho, a navalha, o pincel e a conversa com o cliente também atravessaram gerações.

Hoje, quando entramos em uma barbearia tradicional, talvez não imaginemos que aquele ambiente tem raízes em uma época na qual o mesmo profissional podia cortar cabelos, fazer a barba, tocar violão, vender perfumes e aplicar sanguessugas.

A história brasileira do barbear guarda personagens e acontecimentos que merecem ser conhecidos e preservados.


## Fontes e reportagens -

1\. Salão Goyer – Caxias do Sul, 1904. Reportagem do jornal Pioneiro sobre a barbearia, o café e o bilhar.

[https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro...atgpt.com)

2\. Salão Cristal – Lavras, Minas Gerais. Reportagem sobre a história do estabelecimento e seu mobiliário centenário.

[https://jornaldelavras.com.br/index.php?...atgpt.com)

3\. Ganhar a vida: uma história do barbeiro africano Antônio José Dutra e sua família. Pesquisa acadêmica publicada na Revista de História da USP.

[https://www.scielo.br/j/rh/a/dRffPbr5STd...atgpt.com)

4\. A trajetória de médicos e barbeiros no Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX. Pesquisa publicada na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos.

[https://www.scielo.br/j/hcsm/a/Hf75R4tXb...atgpt.com)

5\. Centro do Rio tinha pelo menos uma barbearia por rua no século XIX. Pesquisa divulgada pela Casa de Oswaldo Cruz, da Fiocruz.

[https://ppghcs.coc.fiocruz.br/todas-as-n...atgpt.com)

6\. As sanguessugas nas barbearias da Paraíba no século XIX. Pesquisa histórica com transcrição do anúncio publicado em 1861.

[https://www.ufpb.br/editoraccta/contents...atgpt.com)

ABS,

MB



usuários a ver este tópico: 1 Visitante(s)