Procura-se desesperadamente: um barbeiro raiz.

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Procura-se desesperadamente: um barbeiro raiz.

Durante muito tempo, o barbeiro foi uma figura tão comum na cidade quanto o padeiro, o açougueiro ou o dono do boteco.

Em praticamente qualquer bairro havia uma barbearia. Normalmente era um lugar pequeno, com duas ou três cadeiras, espelhos grandes, algumas revistas e aquele cheiro característico de loção pós-barba. O barbeiro conhecia os clientes pelo nome, sabia como cada um gostava do cabelo e, muitas vezes, também sabia das novidades do bairro antes de todo mundo.

Para fazer a barba, o sujeito simplesmente ia até lá.

Hoje isso parece estranho. Em muitas cidades, uma barbearia tradicional virou uma coisa que você precisa procurar. E quando encontra, às vezes ela está cheia de objetos antigos, cadeiras de barbeiro restauradas e barbeadores que poderiam ter saído de uma fotografia de 1950.

A história dessa mudança começou bem antes do barbeador descartável.

Em 1901, King Camp Gillette registrou a ideia de uma lâmina fina e substituível montada em um cabo reutilizável. O primeiro barbeador chegou ao mercado em 1903. Pela primeira vez, um homem comum podia comprar um instrumento relativamente barato e fazer em casa uma coisa que, durante muito tempo, esteve ligada à navalha e ao trabalho do barbeiro.

A novidade não acabou com as barbearias. Longe disso.

Mas começou a tirar delas uma parte do serviço.

E os números americanos mostram que essa mudança foi enorme.

Em 1950, os Estados Unidos tinham aproximadamente 287 mil barbearias. Cinquenta anos depois, restavam cerca de 56 mil. Uma redução superior a 80%.

É uma diferença difícil de imaginar. Não estamos falando de algumas milhares de lojas que fecharam. Estamos falando de uma profissão que perdeu boa parte do espaço que ocupava no cotidiano americano.

E há um detalhe interessante: isso começou antes da explosão dos barbeadores descartáveis.

Em 1950, havia aproximadamente 193 mil barbeiros nos Estados Unidos. Em 1960, eram cerca de 180 mil.

Aos poucos, fazer a barba deixou de ser necessariamente um serviço comprado de outra pessoa e passou a ser uma tarefa doméstica.

Depois vieram os descartáveis e aceleraram tudo.

Em 1971, a Gillette lançou o Trac II, com duas lâminas. Em 1974, a Bic entrou no mercado americano com seu barbeador descartável. No ano seguinte, a Gillette lançou o Good News, também descartável.

A diferença era enorme.

Com um safety razor antigo, você comprava o aparelho e depois comprava lâminas para continuar usando o mesmo cabo durante anos.

Com o descartável, a lógica era outra: usa e joga fora.

Não precisava afiar.

Não precisava aprender a lidar com uma navalha.

Não precisava desmontar o aparelho para limpar.

Não precisava nem pensar muito sobre manutenção.

Quando acabava, comprava outro.

E isso combinava perfeitamente com o estilo de vida que estava surgindo.

Imagine um sujeito trabalhando oito ou dez horas por dia, morando cada vez mais longe do trabalho e usando o carro para praticamente tudo. Por que ele iria perder tempo indo até uma barbearia para fazer a barba se podia resolver aquilo em alguns minutos diante do espelho?

O concorrente do barbeiro não era somente a lâmina.

Era a conveniência.

A indústria percebeu isso muito bem e passou a vender cada vez mais essa ideia. Primeiro veio a praticidade. Depois, duas lâminas. Cabeça móvel. Faixa lubrificante. Três lâminas. Cinco.

A mensagem era simples, mesmo quando a propaganda não dizia isso diretamente: você não precisa saber fazer a barba. O aparelho sabe.

E o mesmo processo atingiu o cabelo.

Durante muito tempo, o barbeiro ganhava dinheiro com duas coisas que aconteciam no mesmo lugar: cabelo e barba. Quando a barba começou a ser feita em casa, ele perdeu uma parte do serviço. Depois vieram as mudanças nos cortes masculinos, os salões que passaram a atender homens e mulheres e uma quantidade cada vez maior de opções para cortar o cabelo.

A barbearia foi perdendo espaço por dois lados ao mesmo tempo.

Enquanto isso, o banheiro de casa ganhava.

No Brasil, a história tem algumas particularidades, mas a mudança também aconteceu.

A Gillette já anunciava seus produtos por aqui em 1909, e em 1926 a empresa tinha uma fábrica no Rio de Janeiro. A marca ficou tão associada à lâmina de barbear que “gilete” entrou no vocabulário brasileiro como nome genérico para lâmina.

Durante décadas, porém, o barbeiro continuou sendo parte da vida dos bairros brasileiros.

Era o lugar onde se cortava o cabelo, fazia a barba e se ficava conversando.

Em muitas cidades pequenas, a barbearia era quase uma extensão da calçada. O cliente entrava sem pressa, conhecia o barbeiro, encontrava alguém conhecido e ficava ali alguns minutos. Não era apenas um serviço de higiene. Fazia parte da rotina do bairro.

Depois, aos poucos, o cabelo passou a ser cortado em outros tipos de estabelecimento, a barba passou a ser feita em casa e os barbeadores descartáveis ficaram baratos e fáceis de encontrar.

O que aconteceu nos Estados Unidos também aconteceu por aqui, embora em ritmos e condições diferentes.

E não dá para colocar tudo na conta da lâmina.

O automóvel mudou as cidades. As pessoas passaram a morar e trabalhar de maneira diferente. Os supermercados e grandes lojas começaram a concentrar produtos que antes eram comprados em pequenos estabelecimentos. A televisão criou novos hábitos de consumo. Os salões de beleza passaram a atender homens e mulheres. E o próprio corte de cabelo masculino mudou bastante ao longo do século.

A antiga barbearia perdeu espaço enquanto o banheiro de casa ganhava.

Essa talvez seja a parte mais curiosa da história.

A indústria não precisou convencer milhões de homens a odiar o barbeiro. Bastou tornar desnecessária uma parte do serviço.

E funcionou.

Mas o curioso é que a história não terminou aí.

Nos últimos anos, a barbearia voltou a aparecer nas cidades. Cadeiras antigas, navalhas, toalhas quentes, pincéis e aquele visual de barbearia dos anos 1950 começaram a aparecer novamente.

Só que agora existe uma diferença importante.

O cliente não vai porque precisa.

Vai porque quer.

Ele já tem um barbeador em casa. Pode fazer a própria barba em cinco minutos. Pode comprar um aparelho descartável no supermercado e resolver o problema.

Mesmo assim, paga para sentar numa cadeira e deixar outra pessoa fazer aquilo.

Talvez porque o barbeiro nunca tenha vendido apenas uma barba bem feita.

Durante décadas, os fabricantes foram tornando o barbear mais simples, rápido e conveniente. E conseguiram.

O homem deixou de precisar do barbeiro para fazer a barba.

Só que a barbearia tinha outras coisas que nenhum barbeador conseguiu colocar dentro de uma embalagem: conversa, costume, convivência e alguns minutos de tempo perdido sem culpa.

Hoje, quando alguém entra numa barbearia tradicional, provavelmente não está procurando aquilo porque não sabe fazer a própria barba.

Está procurando justamente aquilo que o barbeador conseguiu eliminar.

O ritual.

abs,

Igor.
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  • GMMCM, Joao Americo, João Clodoaldo., thony
Gde análise Igor, parabéns
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  • Joao Americo
Interessante análise e excelente crônica, como sempre!
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  • Joao Americo



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